"Astraios Editora, o resgate do pensamento consensual" in DEXTRAVOX

"Astraios Editora, o resgate do pensamento consensual"
Por Filipe Carvalho

Vários intervenientes apontam para uma certa uniformidade temática e ideológica nas ofertas das principais livrarias nacionais, sugerindo que determinadas correntes de pensamento — nomeadamente as críticas do progressismo cultural contemporâneo — teriam menor visibilidade nos circuitos editoriais dominantes.

A Astraios Editora, com sede no Porto, apresenta-se como uma legítima resposta a essa tendência. "Si vis pacem, para bellum" ("se queres a paz, prepara-te para a guerra"), uma escolha que a editora assume como uma declaração de intenções e não como um mero exercício estético.

Numa altura em que grande parte do sector optou pela prudência, a Astraios definiu como missão publicar em português obras que a ortodoxia cultural dominante tende a manter à margem. O catálogo inclui traduções cuidadosamente seleccionadas — desde a análise crítica de Pierre Valentin sobre aquilo que descreve como a patologia do movimento woke, até obras de geopolítica que questionam a narrativa oficial sobre o declínio do Ocidente.

Numa época marcada pela histeria promocional e pelas infinitas justificações confessionais das redes sociais, a Astraios actua com uma sobriedade radical e uma altivez quase militar, operando sob uma premissa cortante: "Não damos explicações. Publicamos." A editora recusa-se a justificar a sua existência perante o tribunal do consenso e deixa que as suas obras falem por si, confiando na inteligência de quem as lê.

Esta postura de autêntica guerrilha cultural traz para a língua portuguesa autores que a ortodoxia cultural pretendia manter sob o manto do silêncio. Este projecto independente logra para que o livro impresso deixe de ser um mero objecto de consumo e regresse à sua vocação de instrumento de "contrabando intelectual e de subversão".

Numa conversa sem paninhos quentes com os obreiros desta trincheira sediada, desde 2022 no Porto, tentei perceber como se cultiva a soberania do espírito e a independência absoluta num país vergado ao conformismo. A Astraios Editora demonstra que editar vai para além de ser apenas um negócio; é a última forma de resistência elegante, onde um livro nunca acaba na última página.


F.C.: No vosso catálogo figuram autores como Pierre Valentin (Compreender a Revolução Woke) e Mathieu Bock-Côté. Em Portugal, a maior parte do mainstream mediático e académico continua a asseverar que o "wokismo" é um fantasma americano que não tem expressão real por cá. Esta negação colectiva é miopia intelectual, anestesia deliberada ou o sintoma de que a infecção já está em estado avançado?

Astraios: Antes de mais, uma precisão sobre o lugar de onde falo: não sou intelectual, nem pretendo sê-lo — sou, antes de tudo, um difusor de ideias. O papel da Astraios não é o de impor uma verdade, mas o de dar voz, em português, a autores que respeitamos e que consideramos merecerem lugar no debate público — como é o caso de Pierre Valentin ou de Mathieu Bock-Côté. A opinião que se segue é, portanto, a minha, como editor e leitor atento — não a de um especialista da matéria.
Dito isto: não creio que se trate de negacionismo, no sentido de um erro de perceção involuntário. O que vejo é antes uma estratégia consciente. O centro do fenómeno está no meio académico — é ali que as ideias nascem e ganham legitimidade — e é a partir daí que se ramificam para os media, para a política e, sobretudo, para a educação.
O argumento de que se trata de "um fantasma americano sem expressão real no país" parece-me particularmente frágil no caso português. Somos, culturalmente, um dos países mais permeáveis ao soft power e à cultura americana — quase mais americanizados do que teimamos em admitir. Dizer que aquilo que se passa nos Estados Unidos não nos diz respeito é ignorar essa mesma permeabilidade que reconhecemos sem hesitar noutros domínios. E com as redes sociais, o tempo de propagação que antes se media em décadas mede-se hoje em meses.
Há sinais concretos de que o fenómeno já está entre nós: o manual "KINDER" nas escolas, o recuo do governo em 2025 sobre a disciplina de Cidadania. O debate está bem vivo — não é uma importação hipotética.
É precisamente por isso que publicámos Pierre Valentin. O epicentro do fenómeno "woke" está, sem dúvida, no mundo anglo-saxónico e em França — é aí que a contaminação é mais avançada. Mas essa mesma lógica de expansão que descrevo, de irradiação a partir de focos universitários, não se detém nas fronteiras: chega a Espanha, chega a Portugal, com o desfasamento temporal a encurtar-se a cada ano. O livro de Valentin é, para mim, indispensável precisamente porque desmonta o mecanismo com rigor: mostra que a ideologia woke não é, no fundo, uma afirmação positiva de nada — é pura negação. A sua única especificidade é essa: negar, sem propor. Para quem quiser compreender o fenómeno antes de o ver instalado cá, mais do que combatido, recomendo vivamente esta leitura.
Não falaria, portanto, de negação inocente por parte dos media e da academia. Falaria de uma agenda que avança, deliberadamente, quase a descoberto — e que, segundo creio, colide com aquilo que pensa a maioria dos portugueses. Mas posso estar enganado; não tenho a pretensão de cartografar a sociologia académica portuguesa em detalhe — apenas de reconhecer um padrão que se repete em todo o Ocidente.


F.C.: O escritor francês Julien Rochedy, que vocês publicam, fala abertamente sobre a crise de identidade masculina e o declínio da vontade na juventude europeia. Sentem que a nova geração portuguesa está a acordar para estas ideias ou o espírito crítico dos mais jovens foi definitivamente triturado pelo ecrã do telemóvel?

Astraios: O que noto é um fenómeno mais amplo, europeu, ocidental: uma reação de uma parte da juventude masculina — e Portugal não é exceção — a décadas de discurso mundialista, europeísta e progressista.
Vejo isso refletido no ressurgimento de correntes mais patriotas, mais conservadoras, que procuram uma sociedade mais segura e mais nacional — e que colocam, com seriedade, a pergunta sobre qual é o lugar de Portugal no mundo. Isso, para mim, é um sinal mais concreto do que qualquer sondagem sobre "despertar de consciência": é a prova de que há, nalguma parte da juventude, uma procura ativa de outra via.
É nesse contexto que livros como os de Julien Rochedy fazem sentido. Não como antifeminismo grosseiro — muito pelo contrário, recomendo aliás vivamente Amor e Guerra a qualquer leitor, seja homem ou mulher: é quase um elogio ao amor entre os sexos, à complementaridade que atravessou a civilização ocidental. Mas Super-Homens e Sub-Homens fala diretamente a essa geração, a essa masculinidade que hoje é atacada por todos os lados — o pai automaticamente suspeito de autoritarismo, a virilidade tratada como problema a corrigir. Rochedy propõe o contrário: uma masculinidade ritualizada, com os seus pré-requisitos, como condição de um organismo social são.
E aqui encontro um elo direto com o que dizia a propósito de Pierre Valentin: a ideologia woke, tal como ele a descreve, não constrói nada — é pura negação, um nihilismo que se multiplica, sem nunca propor uma ordem alternativa. É esse vazio que torna ainda mais urgente um livro como o de Rochedy — não como resposta pronta, mas como convite a pensar a masculinidade fora dessa lógica de pura negação.
É um livro que recomendo sem reservas — de uma inteligência rara, e que penso ser essencial para quem queira compreender esta geração, mais do que julgá-la.


F.C.: Ao publicarem análises económicas e geopolíticas de autores como Jacques Sapir, Charles Gave ou ensaios sobre o Leste Europeu que rasgam por completo a narrativa oficial da NATO e de Bruxelas, vocês entram num terreno minado. Quantas vezes já foram brindados com o rótulo de "propagandistas" ou ameaçados com o cancelamento comercial? Como se lida com a censura invisível da distribuição e das grandes superfícies?

Astraios: Com toda a honestidade, não sinto que tenhamos sido alvo de censura, nem de qualquer tentativa séria de anulação comercial. A realidade é mais prosaica.
Nas redes sociais, a diferença é clara: no X, nunca fomos limitados — é aliás o espaço onde o debate ainda respira. No Instagram, a moderação é muito mais rápida e é preciso ter cuidado redobrado com o que se escreve, mas isso resulta antes das regras da própria plataforma do que de qualquer perseguição dirigida a nós.
Na distribuição física — estamos na FNAC, na Bertrand, na Wook, na Almedina — nunca fomos escondidos, mas também nunca fomos destacados gratuitamente: os lugares de destaque pagam-se, como em qualquer editora. Não vejo nisso censura, vejo lógica comercial.
Dito isto, seria desonesto não reconhecer que já fomos, sim, chamados de propagandistas — sobretudo por causa de Afonso Moura, é aí que a acusação de "propagandismo putinista" nos atinge mais diretamente. Autores como Jacques Sapir ou Charles Gave também contribuem, em menor grau, para essa etiqueta, sobretudo por publicarmos leituras que fogem ao consenso atlantista de Portugal. Mas insisto: publicámo-los precisamente por isso. Sapir não é um provocador — é uma referência incontornável em França, especialista reconhecido em economia russa e em economias de planificação, um autor que o público português devia conhecer, mesmo que, ou sobretudo porque, incomoda esse consenso.
No início, é verdade, houve uma postura mais provocadora — sabíamos que certos autores nos dariam visibilidade num mundo editorial português que considero extremamente consensual. Funcionou. Hoje já não precisamos dessa estratégia: temos autores como Afonso Moura, cujo livro Operação Militar Especial é um dos mais vendidos do catálogo, e que colabora com oLe Figaro em frança e comenta geopolítica na televisão.
Sendo intelectualmente honesto, direi que hoje sou sobretudo alvo de ataques nas redes sociais — sempre moderados, sem nada de grave, é um pouco o jogo da internet. Mas é verdade que os apelos à censura vêm sobretudo de pessoas de obediência mais próxima da extrema-esquerda — ainda que hesite em usar este termo, no sentido "nobre" da palavra, para descrever certas correntes que são, na realidade, mais liberais-libertárias do que propriamente de esquerda tradicional, para retomar a distinção de autores como Jean-Claude Michéa, que publicaremos brevemente. Mas não estamos isentos do lado oposto: recebo também críticas de uma franja da direita reacionária ou identitária.
O caso do livro de Afonso Moura é, aliás, revelador dessa polarização: recebemos invectivas dos dois lados. De um lado, quem nos vê como "propagandistas putinistas"; do outro, uma franja da direita mais reacionária ou identitária europeia que, precisamente pelas suas análises sobre o Irão, o vê como demasiado condescendente com Teerão — chegam a chamar-lhe "aiatola de esquerda". É, de certa forma, revelador do estado do debate público: ultrapolarizado, onde a nuance é sistematicamente lida como cumplicidade com "o outro lado".
Aproveito, aliás, para dizer que temos verdadeiro orgulho em publicar Afonso Moura. Considero-o, sem exagero, um dos espíritos mais brilhantes do debate geopolítico português atual — e o reconhecimento tem vindo, justamente: começou recentemente a fazer um comentário diário, todas as noites, no canal NOW. É um mérito bem merecido. Recomendo vivamente a quem nos lê que vá ouvi-lo ou ler os seus escritos através da Astraios.
Curiosamente, a única censura que já praticámos foi a nós próprios. Recusámos publicar um autor com visibilidade considerável, que teria vendido bem, porque o texto se aproximava mais de um manifesto militante do que de um ensaio — saía da nossa linha editorial, que é elevar o debate, não fazer política partidária. E há um caso ainda mais revelador: temos, há muito, a hipótese de publicar um documento histórico hoje em domínio público — "A Batalha de Berlim", de Goebbels — devidamente contextualizado, como caso de escola sobre a organização e queda de regimes políticos. Sabemos que, apesar de todo o enquadramento histórico, seríamos imediatamente rotulados de neonazis. É um exercício interessante: no mesmo impulso, poderíamos publicar o Manifesto Comunista, igualmente relevante para compreender como se organizam movimentos políticos — mas ninguém nos chamaria estalinistas por isso. Essa assimetria diz muito sobre onde estão hoje as verdadeiras fronteiras do debate em Portugal.
Ora, o objetivo da Astraios nunca foi polarizar, mas trazer para o debate público questões demasiado consensuais, com nuance. Sabemos, contudo, que certos títulos do catálogo geram clivagem — e que isso nos vale, de forma generalizada e algo simplista, o rótulo de "editora de extrema-direita". Romain Bessonnet escreve sobre Putin, logo é extrema-direita. Jacques Sapir, economista que vem da esquerda económica, é também rotulado de extrema-direita. Bernard Lugan, por introduzir empirismo na história da escravatura, é acusado de apologia colonial. Pierre Valentin, por criticar o wokismo, sofre o mesmo rótulo. Este simplismo já nos custou autores que gostaríamos de publicar — franceses e anglófonos que recusaram colaborar por receio de serem demasiado associados a essa etiqueta.
Ainda assim, conseguimos manter a ambição de um catálogo transversal: teremos brevemente Jean-Claude Michéa, autor de esquerda crítico do consumismo. Grande parte destas colaborações devemo-las à nossa relação com o Cercle Aristote, dirigido por Pierre-Yves Rougeyron em França: provavelmente o círculo de educação popular mais relevante e influente da vertente patriota e nacional francesa, com um nível de debate e de autores que não tem equivalente. Temos verdadeiro orgulho nesta parceria — e há mais títulos do catálogo do Cercle Aristote a caminho. O público que nos lê pode preparar-se: vem aí material de peso.
O que não escondemos é que a nossa linha editorial tem, de facto, uma direção: a de enriquecer o debate de ideias em Portugal. E é claro que isso não é compatível com um certo jornalismo progressista que considero destrutivo para a nação — nesse sentido, sim, os nossos autores contribuem para combater um fenómeno que, infelizmente, corrói o Ocidente.


F.C.: O historiador Bernard Lugan, especialista em África e também presente no vosso acervo, destrói os mitos do pós-colonialismo choramingas que hoje domina as narrativas académicas em Portugal. Publicar Lugan no Portugal contemporâneo é uma provocação deliberada à historiografia oficial do Estado ou um acto resistente de reposição da verdade "empírica"?

Atraios: Confesso que não sei exatamente o que se entende, no contexto português, por uma "historiografia oficial do Estado" — não tenho conhecimento de que exista algo assim de forma institucionalizada. O que constato é antes uma narrativa dominante no imaginário coletivo ocidental, fortemente moldada pela experiência americana.
E aí está, creio, um dos maiores sintomas da nossa americanização: quando se fala de escravatura na Europa, projeta-se quase automaticamente a imagem americana — o Sul dos Estados Unidos, o algodão, a segregação — como se fosse universal. São duas histórias, dois contextos, duas cronologias completamente distintas. Isso ficou muito claro para mim quando, após a morte de George Floyd, vimos surgir em Portugal e por toda a Europa manifestações do Black Lives Matter, como se a condição dos afro-americanos fosse diretamente comparável à dos portugueses de origem africana. São realidades históricas diferentes.
Foi por isso que quis que o livro de Bernard Lugan fosse a nossa primeira publicação. Lugan é um historiador incontornável em França — silenciado por certos meios universitários, mas ao mesmo tempo muito respeitado noutros contextos, nomeadamente em Marrocos, onde continua a lecionar. É ele quem fala de "história das Áfricas", no plural, precisamente para escapar às simplificações.
O livro não pretende absolver ninguém — o que a Europa e Portugal fizeram historicamente não deixa de ter sido, à luz de hoje, moralmente condenável. Mas devolve a essa história a sua complexidade empírica: mostra, por exemplo, o papel de reinos africanos poderosos no próprio comércio, papel que a narrativa dominante tende a apagar. Não é sobre culpar menos os europeus — é sobre contar a história inteira, sem seleção conveniente.
E acho isto importante para o Portugal de hoje, precisamente porque temos uma parte significativa da população de ascendência africana. Uma sociedade só se apazigua quando toda a história é posta em cima da mesa — sem se ajoelhar perante uma acusação que, muitas vezes, nem sequer é a nossa. Um país não se constrói com a cabeça baixa. E a história de Portugal, com todas as suas sombras, é também uma história de grandeza — não vejo por que motivo devêssemos envergonhar-nos dela.




















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