"Liberdade, maldade e dissolução: uma reflexão sobre o homem contemporâneo" in Observador
"Liberdade, maldade e dissolução: uma reflexão sobre o homem contemporâneo" O Homo Sapiens , este bípede erigido sob a insustentável leveza do Ser, vive acorrentado à miragem filosófica que lhe arroga simultaneamente a dignidade e a miséria da escolha. Desde Agostinho de Hipona que se proclama o livre-arbítrio como uma concessão divina: o mal não como substância, mas como privação do bem, fruto de uma vontade mal orientada. Uma dádiva, dizem, que nos eleva acima da pura mecanicidade da matéria. Mas que arquitectura perversa é esta que nos dota de liberdade para, invariavelmente, cairmos na abjecção? A maldade não é uma anomalia no tecido da Criação; é a sua constante mais estável e, paradoxalmente, a mais definidora daquilo a que chamamos liberdade. O relato do Gênesis não descreve apenas uma queda, mas a inauguração desta ambiguidade. A Árvore do Conhecimento não impõe uma proibição arbitrária; mas abre, antes, o campo da possibilidade. Onde antes havia inocê...