"O Estado contra os seus" in Observador
O assassínio de Henry Nowak em Southampton chegou-me como chegam estas notícias que o tempo presente fabrica em série e depois descarta — pelo ecrã, entre uma publicidade e outra, entre um escândalo e o seguinte — mas ficou. Ficou porque não era mais uma notícia, era um sintoma; e os sintomas, ao contrário das notícias, não se descartam: acumulam-se em silêncio no corpo dos adoecidos até que o médico, ou a autópsia, lhes dê finalmente o nome que sempre tiveram. O que é que ficou desta notícia, exactamente? Não a morte em si porque a morte é antiga, é familiar, é o único horizonte infalível que nunca falhou a nenhum povo. O que ficou foram as reacções. Ou melhor: quem chorou e quem não chorou. Quem foi para as ruas e com que palavras. Quem invocou a justiça e quem invocou a ordem. Quem disse isto e aquilo não nos representa e quem disse aqueloutro era inevitável. O nosso ilustre Jaime Nogueira Pinto observou, numa entrevista ao iOnline em Janeiro de 2017, que a polític...