Mensagens

"Mulheres improváveis" in Observador

Imagem
Mulheres improváveis Escrever sobre feminismo sem repetir o catecismo aprovado é, nos dias de hoje, um desporto de alto risco. Não por falta de argumentos, mas porque a nova ortodoxia funciona exactamente como as antigas: quem discorda não está errado, está doente; ou, na versão actualizada, é um privilegiado , "melhor" ainda, é fóbico . Ou simplesmente cancelado, que é a versão moderna da fogueira da caça às bruxas. Pois bem. Vamos arriscar. Há uma ironia magnífica no centro do feminismo contemporâneo dominante que os seus sacerdotes parecem ter decidido ignorar em uníssono. O movimento que diz defender as mulheres é o mesmo que, a sério, recusa defini-las. Quando a juíza Ketanji Brown Jackson, durante a sua audiência no Supremo Tribunal americano, declarou não poder definir "mulher" porque "não é bióloga", não estava a ser cuidadosa. Estava a ser reveladora. Se não conseguimos definir o sujeito, como defendemos os seus direitos?  Olympe de Go...

MARCHA DE BRAGA: A TRAIÇÃO DO 28 DE MAIO in Dextravox

Imagem
MARCHA DE BRAGA: A TRAIÇÃO DO 28 DE MAIO Cem anos volvidos sobre aquela manhã radiosa de Braga, radiosa como só o são as manhãs que precedem tempestades ou redempções. O 28 de Maio de 1926 permanece como o grande divisor de águas da contemporaneidade portuguesa, o marco a partir do qual os historiadores de boa fé se separam daqueles que exercem a história como se exerce uma vingança selectiva, e com os dentes à mostra e os olhos fechados. Para compreendermos a ascensão do General Gomes da Costa e a subsequente transição para a longa estabilidade do Estado Novo (para uns protectora e fecunda, para outros asfixiante, consoante o grau de saudade que se conserva pela anarquia); cumpre olharmos para o cenário de ruína moral e institucional que era a Primeira República, se ousarmos vê-la como uma tragédia grega encenada por actores de vaudeville . O regime de 1910, nascido de um optimismo messiânico e racionalista, degenerara numa sucessão de gabinetes efémeros e num parlamentari...

"Salazar: quando Portugal aprendeu a parecer eterno" in Dextravox

Imagem
"Salazar: quando Portugal aprendeu a parecer eterno" Há figuras na história que, pela persistência do seu método e pela coerência da sua visão, parecem dotadas de um raro dom de transmutação. A António de Oliveira Salazar foi frequentemente atribuído esse "toque de Midas", não tanto como uma metáfora de riqueza fácil, mas como o símbolo de uma capacidade singular de disciplinar realidades desagregadas. Não foi tanto um criador de riquezas, à maneira literal do mito de Midas, mas o seu "toque", não produzindo ouro visível; produziu antes, um bem raro e silencioso, sem o qual nenhuma grandeza se sustentou: estabilidade. Quando assumiu a pasta das Finanças em 1928, a República, no seu fervor, era um corpo exausto. As finanças públicas estavam descontroladas, a moeda era instável, o crédito externo estava comprometido e deambulava uma crónica incapacidade de execução. Portugal encontrava-se num estado de dispersão quase entrópica e foi necessário, ...

O Homem e a Mulher existem? in Observador

Imagem
"O Homem e a Mulher existem?" Consoante a instituição académica, chamamos de "estudos de género", "teoria queer" ou "desconstrução do sujeito" a um particular tipo de violência, quase sempre praticada, com financiamentos públicos; que raramente não transforma o que qualquer pessoa sensata vê com os seus próprios olhos, numa "construção de poder" que urge não desmantelar, uma escaramuça entre alguns antropólogos e a natureza. Comecemos pelo princípio, que é também o princípio do problema. Em 1949, Simone de Beauvoir escreveu que " ninguém nasce mulher, torna-se mulher" . Uma frase elegante que é também o ponto de partida de uma das mais longas e custosas aventuras intelectuais e tentativas de convencer a humanidade de que, a diferença entre um homem e uma mulher, é afinal uma ilusão fabricada pelo poder. Beauvoir tinha razão quando nos alertou de que a forma como as mulheres se comportam, vestem e vivem, muda consoa...

Entrevista com a editora Contra-Corrente in Dextravox

Imagem
https://dextravox.pt/contra-corrente-uma-editora-dissidente/ Entrevista com os editores da Contra-Corrente “Contra-Corrente não é um produto comercial. Possuir um livro Contra-Corrente significa contribuir activamente para a formação e financiamento de uma área político-cultural Não-Conforme. Possuir e difundir esta obra significa incarnar uma mensagem e o símbolo que representa...Sê digno e pronto a defender as tuas escolhas. Sempre.” Num panorama editorial frequentemente orientado por lógicas comerciais e tendências de mercado, a Contra-Corrente afirma-se como um projecto singular. Com mais de 120 obras publicadas, a editora apresenta-se não apenas como um agente cultural, mas como um veículo de intervenção político-cultural, assumindo desde as primeiras páginas de cada livro um compromisso claro com aquilo que define como uma área “Não-Conforme”. Mas o que significa, na prática, estar “contra-corrente” no contexto actual? Que ideias, autores e visões sustentam este proje...

"A propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa" in Dextravox

Imagem
"A propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa"  ​No dia 5 de Maio de 2026, as instituições do regime cumpriram o calendário. Entre vinhos de honra e discursos ocos, celebrou-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Mas, enquanto a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, fundada em 17 de Julho de 1996) celebra o português como um "activo diplomático" e "económico" em reuniões de alto nível, ignora-se, em paralelo, a degradação da língua (numa "mitralização" ou "brasileirismo de massas") que ocorre na base, na rua e entre as juventudes que, em teoria, deveriam ser o futuro dessa mesma comunidade. O que ouvimos hoje, de forma geral e num Portugal transversal, não é a evolução orgânica de um idioma; mas a sua necrose. O "falar à mitra" — esse híbrido de crioulos, slang digital (enquanto gíria paralela e extremamente volátil que molda a forma como a juventude comunica e, por extensão, como pensa) e fonética ...

"O COPCON e o delírio revolucionário " in Observador

Imagem
"O COPCON e o delírio revolucionário" ​A História de Portugal, nas suas horas de maior angústia, pautou-se sempre por uma tensão dialéctica entre a ordem e o abismo. Contudo, o chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso) — inaugurou uma modalidade de caos que não visava apenas a substituição de uma elite, mas a extirpação da própria memória nacionalista da Pátria. No epicentro deste terramoto institucional surgiu o COPCON (Comando Operacional do Continente), uma espécie de guarda pretoriana de pendor jacobino de Robespierre e que, sob a máscara da "libertação", instaurou um regime de excepção onde o nacionalismo orgânico foi o alvo preferencial de uma purga sem precedentes. ​O COPCON (Comando Operacional do Continente) não foi uma unidade militar convencional; foi a materialização de uma utopia regressiva liderada por Otelo Saraiva de Carvalho. Para este condottiero  — termo que aqui evoca a figura do chefe militar aventureiro e mercenário da Renasce...