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"A Europa e a Figueira da Foz" in Observador

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"A Europa e a Figueira da Foz" Há coisas que acontecem longe das câmaras e que por isso mesmo acontecem de verdade. A Figueira da Foz fica a cento e tal quilómetros do Porto, tem um casino art déco que o tempo foi comendo por dentro, um estuário largo onde o Mondego se rende ao Atlântico com uma espécie de cansaço antigo, e não é o género de lugar onde se espera que a história bata à porta. Mas a história tem esse feitio, aparece onde não foi convidada, senta-se sem pedir licença, e quando se vai embora já nada está como estava, embora se demore tempo a perceber porquê. Foi ali, num sábado de Maio que os jornais de Lisboa mal noticiaram e os de Bruxelas fingiram não ter visto, que quatrocentas ou quinhentas pessoas — alemães, espanhóis, holandeses, americanos e portugueses — se reuniram para dizer em voz alta aquilo que a "velha" Europa pensa em voz baixa há trinta anos. A palavra é remigração. Conhecemos esse grito. Fomos educados nele, alimentados po...

"Nem Marxismo apátrida, nem Liberalismo selvagem" in Dextravox

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"Nem Marxismo apátrida, nem Liberalismo selvagem" ​O século XX inaugurou-se sob o signo de uma profunda crise civilizacional. O optimismo oitocentista na democracia liberal e no livre-mercado ruiu perante o trauma da Grande Guerra e as violentas flutuações económicas que culminaram na Grande Depressão. É nesse cenário de fragmentação social e falência institucional que emergiu a designada "Terceira Via" — um projecto que não se limitava a ser uma reacção táctica, mas que pretendia erguer-se como uma síntese ideológica inteiramente nova, alternativa tanto ao Capitalismo Plutocrático e individualista como ao Colectivismo Marxista e internacionalista. ​Longe de constituir um mero pragmatismo desprovido de doutrina — como erradamente estipulou a primeira historiografia do pós-guerra —, a Terceira Via e os seus congéneres europeus assentaram numa arquitectura conceptual densa. Para compreender a sua génese e enquadramento histórico, torna-se impostergável rec...

"Mulheres improváveis" in Observador

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Mulheres improváveis Escrever sobre feminismo sem repetir o catecismo aprovado é, nos dias de hoje, um desporto de alto risco. Não por falta de argumentos, mas porque a nova ortodoxia funciona exactamente como as antigas: quem discorda não está errado, está doente; ou, na versão actualizada, é um privilegiado , "melhor" ainda, é fóbico . Ou simplesmente cancelado, que é a versão moderna da fogueira da caça às bruxas. Pois bem. Vamos arriscar. Há uma ironia magnífica no centro do feminismo contemporâneo dominante que os seus sacerdotes parecem ter decidido ignorar em uníssono. O movimento que diz defender as mulheres é o mesmo que, a sério, recusa defini-las. Quando a juíza Ketanji Brown Jackson, durante a sua audiência no Supremo Tribunal americano, declarou não poder definir "mulher" porque "não é bióloga", não estava a ser cuidadosa. Estava a ser reveladora. Se não conseguimos definir o sujeito, como defendemos os seus direitos?  Olympe de Go...

MARCHA DE BRAGA: A TRAIÇÃO DO 28 DE MAIO in Dextravox

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MARCHA DE BRAGA: A TRAIÇÃO DO 28 DE MAIO Cem anos volvidos sobre aquela manhã radiosa de Braga, radiosa como só o são as manhãs que precedem tempestades ou redempções. O 28 de Maio de 1926 permanece como o grande divisor de águas da contemporaneidade portuguesa, o marco a partir do qual os historiadores de boa fé se separam daqueles que exercem a história como se exerce uma vingança selectiva, e com os dentes à mostra e os olhos fechados. Para compreendermos a ascensão do General Gomes da Costa e a subsequente transição para a longa estabilidade do Estado Novo (para uns protectora e fecunda, para outros asfixiante, consoante o grau de saudade que se conserva pela anarquia); cumpre olharmos para o cenário de ruína moral e institucional que era a Primeira República, se ousarmos vê-la como uma tragédia grega encenada por actores de vaudeville . O regime de 1910, nascido de um optimismo messiânico e racionalista, degenerara numa sucessão de gabinetes efémeros e num parlamentari...

"Salazar: quando Portugal aprendeu a parecer eterno" in Dextravox

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"Salazar: quando Portugal aprendeu a parecer eterno" Há figuras na história que, pela persistência do seu método e pela coerência da sua visão, parecem dotadas de um raro dom de transmutação. A António de Oliveira Salazar foi frequentemente atribuído esse "toque de Midas", não tanto como uma metáfora de riqueza fácil, mas como o símbolo de uma capacidade singular de disciplinar realidades desagregadas. Não foi tanto um criador de riquezas, à maneira literal do mito de Midas, mas o seu "toque", não produzindo ouro visível; produziu antes, um bem raro e silencioso, sem o qual nenhuma grandeza se sustentou: estabilidade. Quando assumiu a pasta das Finanças em 1928, a República, no seu fervor, era um corpo exausto. As finanças públicas estavam descontroladas, a moeda era instável, o crédito externo estava comprometido e deambulava uma crónica incapacidade de execução. Portugal encontrava-se num estado de dispersão quase entrópica e foi necessário, ...

O Homem e a Mulher existem? in Observador

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"O Homem e a Mulher existem?" Consoante a instituição académica, chamamos de "estudos de género", "teoria queer" ou "desconstrução do sujeito" a um particular tipo de violência, quase sempre praticada, com financiamentos públicos; que raramente não transforma o que qualquer pessoa sensata vê com os seus próprios olhos, numa "construção de poder" que urge não desmantelar, uma escaramuça entre alguns antropólogos e a natureza. Comecemos pelo princípio, que é também o princípio do problema. Em 1949, Simone de Beauvoir escreveu que " ninguém nasce mulher, torna-se mulher" . Uma frase elegante que é também o ponto de partida de uma das mais longas e custosas aventuras intelectuais e tentativas de convencer a humanidade de que, a diferença entre um homem e uma mulher, é afinal uma ilusão fabricada pelo poder. Beauvoir tinha razão quando nos alertou de que a forma como as mulheres se comportam, vestem e vivem, muda consoa...

Entrevista com a editora Contra-Corrente in Dextravox

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https://dextravox.pt/contra-corrente-uma-editora-dissidente/ Entrevista com os editores da Contra-Corrente “Contra-Corrente não é um produto comercial. Possuir um livro Contra-Corrente significa contribuir activamente para a formação e financiamento de uma área político-cultural Não-Conforme. Possuir e difundir esta obra significa incarnar uma mensagem e o símbolo que representa...Sê digno e pronto a defender as tuas escolhas. Sempre.” Num panorama editorial frequentemente orientado por lógicas comerciais e tendências de mercado, a Contra-Corrente afirma-se como um projecto singular. Com mais de 120 obras publicadas, a editora apresenta-se não apenas como um agente cultural, mas como um veículo de intervenção político-cultural, assumindo desde as primeiras páginas de cada livro um compromisso claro com aquilo que define como uma área “Não-Conforme”. Mas o que significa, na prática, estar “contra-corrente” no contexto actual? Que ideias, autores e visões sustentam este proje...