"E DEPOIS DO ADEUS" NO OBSERVADOR
"E depois do adeus" Ceuta nunca foi uma cidade para espíritos ingénuos. Quem ali vive sabe que a História pesa mais do que o clima e que a fronteira não cabe nas linhas de um mapa. Respira-se. Ou respira-se mal. Durante décadas, essa tensão fez parte da identidade da cidade sem lhe roubar a paz. Hoje, roubou-lhe quase tudo. Os jornais falam de pressão migratória. Os governantes preferem expressões assépticas, cuidadosamente polidas para não melindrarem ninguém. Os habitantes, esses, chamam-lhe outra coisa: viver com medo. E o medo tem o péssimo hábito de dispensar eufemismos. Há lojas que encerram quando ainda resta luz do dia. Não porque o expediente tenha terminado, mas porque o proprietário já aprendeu que a prudência rende mais do que a coragem quando o Estado desaparece da paisagem. As grades descem devagar, uma após outra, como se toda a cidade fechasse os olhos antes da noite cair. É uma imagem banal. E justamente por isso é assustadora. O poder contin...