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O filme que a Europa mandou calar (in Observador)

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O filme que a Europa mandou calar (in Observador) Proibir é catapultar. Sempre foi, e partamos do princípio de que o fruto proibido pode ser, salvo raras vezes, o mais apetecido. Quando a Alemanha e o Reino Unido se recusaram a certificar Citizen Vigilante , o mais recente trabalho de Uwe Boll, não estavam apenas a impedir a distribuição comercial de uma película. Estavam a escrever, sem o perceber, a sua crítica mais eloquente — e a fazê-lo em nome de toda a Europa. O filme conta a história de Michael Sanders, um americano abastado, ex-militar, radicado na Europa por herança de um pai distante. Quando percebe que o contrato social ocidental foi rescindido unilateralmente — a lei que não protege, a justiça que não pune, as instituições que existem para gerir e não para servir — torna-se num justiceiro vigilante por conta própria. Mata implacavelmente e justifica-se em vídeos anónimos que circulam nas redes com uma velocidade que nenhuma autoridade consegue travar. A sua retórica é dir...

"Manosfera: nem tradição, nem revolta" in Dextravox

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"Manosfera: nem tradição, nem revolta" Há erros que merecem ser examinados antes de serem condenados. Não porque sejam mais sábios, mas porque são mais reveladores. A manosfera é um desses casos. O homem que adere a ela engana-se acerca da cura, mas não necessariamente acerca da doença; e é muitas vezes mais instrutivo estudar a origem de uma ilusão do que escarnecer daqueles que nela acreditam. Quem observe estes jovens verá que não nasceram do excesso de autoridade, mas da sua ausência. Cresceram num mundo em que quase todas as instituições encarregadas de formar o carácter perderam confiança em si próprias. A família enfraqueceu, a figura paterna tornou-se hesitante ou distante, e a passagem da juventude à idade adulta deixou de possuir os seus antigos marcos. Não admira, pois, que procurem mestres onde os encontrem. O extraordinário não é que os encontrem num ecrã; é que os encontrem ali em tão grande número. A mesma época que privou estes homens de orientação...

"O Estado contra os seus" in Observador

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O assassínio de Henry Nowak em Southampton chegou-me como chegam estas notícias que o tempo presente fabrica em série e depois descarta — pelo ecrã, entre uma publicidade e outra, entre um escândalo e o seguinte — mas ficou. Ficou porque não era mais uma notícia, era um sintoma; e os sintomas, ao contrário das notícias, não se descartam: acumulam-se em silêncio no corpo dos adoecidos até que o médico, ou a autópsia, lhes dê finalmente o nome que sempre tiveram. O que é que ficou desta notícia, exactamente? Não a morte em si porque a morte é antiga, é familiar, é o único horizonte infalível que nunca falhou a nenhum povo. O que ficou foram as reacções. Ou melhor: quem chorou e quem não chorou. Quem foi para as ruas e com que palavras. Quem invocou a justiça e quem invocou a ordem. Quem disse isto e aquilo não nos representa e quem disse aqueloutro era inevitável.  O nosso ilustre Jaime Nogueira Pinto observou, numa entrevista ao iOnline em Janeiro de 2017, que a polític...

"A Europa e a Figueira da Foz" in Observador

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"A Europa e a Figueira da Foz" Há coisas que acontecem longe das câmaras e que por isso mesmo acontecem de verdade. A Figueira da Foz fica a cento e tal quilómetros do Porto, tem um casino art déco que o tempo foi comendo por dentro, um estuário largo onde o Mondego se rende ao Atlântico com uma espécie de cansaço antigo, e não é o género de lugar onde se espera que a história bata à porta. Mas a história tem esse feitio, aparece onde não foi convidada, senta-se sem pedir licença, e quando se vai embora já nada está como estava, embora se demore tempo a perceber porquê. Foi ali, num sábado de Maio que os jornais de Lisboa mal noticiaram e os de Bruxelas fingiram não ter visto, que quatrocentas ou quinhentas pessoas — alemães, espanhóis, holandeses, americanos e portugueses — se reuniram para dizer em voz alta aquilo que a "velha" Europa pensa em voz baixa há trinta anos. A palavra é remigração. Conhecemos esse grito. Fomos educados nele, alimentados po...

"Nem Marxismo apátrida, nem Liberalismo selvagem" in Dextravox

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"Nem Marxismo apátrida, nem Liberalismo selvagem" ​O século XX inaugurou-se sob o signo de uma profunda crise civilizacional. O optimismo oitocentista na democracia liberal e no livre-mercado ruiu perante o trauma da Grande Guerra e as violentas flutuações económicas que culminaram na Grande Depressão. É nesse cenário de fragmentação social e falência institucional que emergiu a designada "Terceira Via" — um projecto que não se limitava a ser uma reacção táctica, mas que pretendia erguer-se como uma síntese ideológica inteiramente nova, alternativa tanto ao Capitalismo Plutocrático e individualista como ao Colectivismo Marxista e internacionalista. ​Longe de constituir um mero pragmatismo desprovido de doutrina — como erradamente estipulou a primeira historiografia do pós-guerra —, a Terceira Via e os seus congéneres europeus assentaram numa arquitectura conceptual densa. Para compreender a sua génese e enquadramento histórico, torna-se impostergável rec...

"Mulheres improváveis" in Observador

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Mulheres improváveis Escrever sobre feminismo sem repetir o catecismo aprovado é, nos dias de hoje, um desporto de alto risco. Não por falta de argumentos, mas porque a nova ortodoxia funciona exactamente como as antigas: quem discorda não está errado, está doente; ou, na versão actualizada, é um privilegiado , "melhor" ainda, é fóbico . Ou simplesmente cancelado, que é a versão moderna da fogueira da caça às bruxas. Pois bem. Vamos arriscar. Há uma ironia magnífica no centro do feminismo contemporâneo dominante que os seus sacerdotes parecem ter decidido ignorar em uníssono. O movimento que diz defender as mulheres é o mesmo que, a sério, recusa defini-las. Quando a juíza Ketanji Brown Jackson, durante a sua audiência no Supremo Tribunal americano, declarou não poder definir "mulher" porque "não é bióloga", não estava a ser cuidadosa. Estava a ser reveladora. Se não conseguimos definir o sujeito, como defendemos os seus direitos?  Olympe de Go...

MARCHA DE BRAGA: A TRAIÇÃO DO 28 DE MAIO in Dextravox

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MARCHA DE BRAGA: A TRAIÇÃO DO 28 DE MAIO Cem anos volvidos sobre aquela manhã radiosa de Braga, radiosa como só o são as manhãs que precedem tempestades ou redempções. O 28 de Maio de 1926 permanece como o grande divisor de águas da contemporaneidade portuguesa, o marco a partir do qual os historiadores de boa fé se separam daqueles que exercem a história como se exerce uma vingança selectiva, e com os dentes à mostra e os olhos fechados. Para compreendermos a ascensão do General Gomes da Costa e a subsequente transição para a longa estabilidade do Estado Novo (para uns protectora e fecunda, para outros asfixiante, consoante o grau de saudade que se conserva pela anarquia); cumpre olharmos para o cenário de ruína moral e institucional que era a Primeira República, se ousarmos vê-la como uma tragédia grega encenada por actores de vaudeville . O regime de 1910, nascido de um optimismo messiânico e racionalista, degenerara numa sucessão de gabinetes efémeros e num parlamentari...