"O paradoxo Israelita "
O paradoxo Israelita
Há uma questão que raramente é tratada com frieza intelectual no debate sobre Israel: até que ponto a memória do sofrimento histórico é um elemento legítimo de identidade nacional — e a partir de que momento se transforma em instrumento político?
Comecemos pelo incontornável, o povo judeu foi alvo de perseguições seculares na Europa. Os judeus foram expulsos de Inglaterra em 1290, de Espanha em 1492, massacrados em pogroms no Leste europeu e, mais mediáticamente no século XX, severamente perseguidos na altura do Terceiro Reich. Ignorar factos que a História nos documenta é intelectualmente desonesto. Mas reconhecer um trauma histórico não significa suspender a análise crítica do presente.
Israel nasce num contexto geopolítico convulso, após o colapso imperial otomano e a reorganização do Médio Oriente pelas potências europeias, com a legitimação política da Organização das Nações Unidas.
Desde o primeiro dia, o Estado de Israel vive sob guerra ou ameaça de guerra. Facto esse que molda profundamente a sua cultura estratégica: nunca mais depender de terceiros e nunca mais ser surpreendido. Esta conclusão está no ADN do sionismo moderno, articulado por figuras como Theodor Herzl.
O problema surge quando o "nunca mais" deixa de ser um princípio de sobrevivência e passa a ser argumento universal.
É aqui que entra o ponto incómodo — existe retórica de vitimização em Israel? Sim. É instrumentalizada? Por vezes, claramente.
A narrativa da ameaça existencial permanente tornou-se um eixo estruturante do discurso político israelita. Líderes como Benjamin Netanyahu têm repetidamente enquadrado adversários regionais como reencarnações históricas do perigo absoluto.
Quando o Hamas declara a não aceitação do Estado de Israel por se sentir injustiçado ao ficar com menos território, quando o Hezbollah mantém um arsenal apontado à sua fronteira, ou quando os dirigentes do Irão utilizam retóricas incendiárias, o medo não é apenas uma ficção. Existem ameaças reais.
Contudo, há uma diferença entre reconhecer ameaças verdadeiras e estruturar toda a política nacional numa lógica de cerco eterno.
Israel é hoje uma potência militar regional, tecnologicamente avançada, com capacidade nuclear não declarada e apoio estratégico dos Estados Unidos. Não se trata de um gueto medieval indefeso e, no entanto, parte do seu discurso político continua a invocar uma vulnerabilidade quase metafísica — como se qualquer concessão territorial fosse um prelúdio de aniquilação.
A vitimização, quando se transforma em blindagem moral, tem efeitos perversos. Dificulta o debate interno, porque a crítica pode ser apresentada como traição ou ingenuidade. Dificulta o debate externo, porque qualquer condenação internacional pode ser enquadrada como manifestação de hostilidade histórica. E, no plano simbólico, cristaliza uma identidade nacional assente no trauma e não na maturidade política.
Mas convém evitarmos as caricaturas; reduzir Israel a uma máquina cínica de exploração da memória é tão simplista quanto negar que essa memória seja mobilizada estrategicamente.
Até que ponto um povo que sofreu um dos maiores crimes da história pode permitir-se a transformar esse sofrimento em fundamento permanente da sua política externa?
A honestidade intelectual exige-nos que reconheçamos a existência de perseguição às comunidades judaicas após a farisaica morte de Jesus Cristo. Não obstante, a maturidade moral começa quando se aceita que uma nação pode ser simultaneamente herdeira de uma tragédia histórica e responsável por decisões criticáveis no presente.
Filipe Carvalho