A inquisição dos mansos e o resgate da inteligência in DEXTRAVOX
A inquisição dos mansos e o resgate da inteligência
A civilização ocidental padece de uma estranha patologia auto-imune, cujo epicentro não reside nas suas fronteiras geopolíticas ou nas oscilações do mercado financeiro, mas sim no coração das suas universidades. O templo que outrora foi erguido para a busca incessante da Verdade objectiva; através do livre embate de ideias e do rigor científico, transformou-se num enfadonho tribunal inquisitorial. Onde antes se cultivava a dúvida metódica e o livre exame, administra-se hoje o dogma, o cancelamento sumário e uma vassalagem psicológica quase mística à cartilha neo-marxista. A universidade atraiçoou a sua missão iluminista: já não ensina as novas gerações a pensar, limita-se a ditar-lhes o que devem submissamente obedecer.
Esta mutação não foi um acidente de percurso, mas sim o triunfo de uma estratégia cirúrgica. Quando o Bloco de Leste colapsou em 1991, arrastando consigo as espingardas e o arame farpado, a esquerda intelectual operou a mais extraordinária metamorfose da história moderna. Percebendo que o operariado ocidental tinha sido "corrompido" pela abundância material do capitalismo, os herdeiros intelectuais de Antonio Gramsci e da Escola de Frankfurt abandonaram a utopia económica e mudaram de trincheira. Se a revolução já não podia ser feita através do assalto às fábricas, seria feita através da colonização da cultura. Foi a chamada "longa marcha através das instituições", iniciada nos idos de Maio de 1968 e consumada com precisão feudal entre as décadas de 1970 e 1980, que transformou os antigos revolucionários de barricada nos actuais catedráticos, editores e juízes que gerem o debate público.
O resultado desta invasão endógena está à vista de todos. Substituiu-se o operário da bacia do Ruhr por uma colagem fragmentada de minorias, operando uma regressão tribalista sem precedentes. Do ponto de vista antropológico, houve uma conveniente transmutação do pecado: o inimigo já não é o detentor dos meios de produção, mas sim o indivíduo que pertence à demografia historicamente dominante do Ocidente. Sob o manto sedutor dos estudos de género, do antirracismo sistémico e do neopaganismo ecológico, a nova esquerda universitária reduziu o ser humano à sua cor de pele, ao seu sexo ou à sua orientação biológica, esvaziando-o de qualquer agência moral. Toda a complexidade trágica da condição humana foi reduzida a um maniqueísmo infantil: de um lado, as vítimas perpétuas; do outro, os opressores estruturais.
O erro mais trágico do nosso tempo é a cobardia com que as elites moderadas aceitam a suposta autoridade moral desta casta clerical. Protegida nas suas eco-câmaras académicas e blindada por um sistema de endogamia onde os dissidentes são liminarmente expurgados da carreira docente, a intelectualidade progressista exibe uma facilidade pornográfica em denunciar as assimetrias do livre mercado, enquanto silencia hipocritamente o inventário de ruínas e fuzilamentos do marxismo clássico. Activam, com descaramento retórico, o clássico paradoxo do "não era verdadeiro comunismo" para imunizar a pureza do dogma face ao veredicto empírico da realidade. A utopia, dizem-nos, permanece intocada no céu das ideias puras; os milhões de cadáveres na URSS, na China ou no Camboja foram meras distorções de percurso.
É tempo de pôr fim a este masoquismo civilizacional. Urge resgatar a inteligência ocidental através de uma dissidência activa e descomplexada. Precisamos de afirmar, sem pedir licença ou desculpa, a primazia da verdade objectiva sobre a narrativa subjectiva do ressentimento. O desacordo intelectual não é uma agressão; a ofensa às sensibilidades vigentes é o preço inevitável de uma sociedade livre. Se uma teoria de trazer por casa não consegue suportar o contraditório num painel universitário sem exigir o cancelamento do orador, é porque ela é intrinsecamente estéril e cientificamente nula.
O resgate da nossa dignidade colectiva exige o desmantelamento das modernas comissões políticas que controlam as bolsas de investigação e os critérios de admissão sob o eufemismo da "Diversidade, Equidade e Inclusão". A meritocracia cega às identidades biológicas é o único critério legítimo numa sociedade que se pretenda justa. A História ensina-nos que as hegemonias dogmáticas parecem invencíveis apenas até ao dia em que os primeiros cidadãos se recusam a sussurrar a mentira oficial. A tirania do ressentimento cultural só durará enquanto durar a tolerância cúmplice dos moderados. O papel aceita qualquer utopia; a realidade, não. É hora de inverter a longa marcha.
Filipe Carvalho
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