"E DEPOIS DO ADEUS" NO OBSERVADOR
"E depois do adeus"
Ceuta nunca foi uma cidade para espíritos ingénuos. Quem ali vive sabe que a História pesa mais do que o clima e que a fronteira não cabe nas linhas de um mapa. Respira-se. Ou respira-se mal. Durante décadas, essa tensão fez parte da identidade da cidade sem lhe roubar a paz. Hoje, roubou-lhe quase tudo.
Os jornais falam de pressão migratória. Os governantes preferem expressões assépticas, cuidadosamente polidas para não melindrarem ninguém. Os habitantes, esses, chamam-lhe outra coisa: viver com medo. E o medo tem o péssimo hábito de dispensar eufemismos.
Há lojas que encerram quando ainda resta luz do dia. Não porque o expediente tenha terminado, mas porque o proprietário já aprendeu que a prudência rende mais do que a coragem quando o Estado desaparece da paisagem. As grades descem devagar, uma após outra, como se toda a cidade fechasse os olhos antes da noite cair. É uma imagem banal. E justamente por isso é assustadora.
O poder continua a produzir comunicados, declarações e promessas. Nas ruas, porém, ninguém regressa a casa protegido por um comunicado. Nenhum discurso afasta um grupo hostil. Nenhuma conferência de imprensa substitui um agente de autoridade onde ele faz falta. A distância entre quem governa e quem vive esta realidade mede-se, afinal, em passos. Uns caminham sobre alcatrão. Outros sobre alcatifas.
Também a cidade acusa o golpe. O lixo acumula-se onde antes havia cuidado. As praias perdem dignidade. Os passeios deixam de convidar ao passeio. Há uma fadiga que se instala primeiro nas pedras e só depois entra nas pessoas. As cidades possuem uma estranha capacidade para denunciar a decadência muito antes de qualquer estatística.
Os pequenos furtos, os desacatos, a tensão permanente e o desprezo pelas regras mais elementares da convivência não representam apenas ocorrências policiais. São um ruído constante que vai desgastando a confiança colectiva, como a água que escava a pedra sem fazer alarde.
O mais inquietante é a facilidade com que tudo isto começa a parecer normal. O homem adapta-se a quase tudo, até ao absurdo. Aprende os percursos que deve evitar, memoriza os horários menos perigosos e habitua-se a olhar em redor antes de tirar a chave do bolso. Um dia percebe que reorganizou a própria vida em função do receio. No dia seguinte já nem pensa nisso.
Uma comunidade pode sobreviver à pobreza. Pode sobreviver a crises económicas e até a catástrofes naturais. Sobreviver muito tempo ao desaparecimento da autoridade é outra história. Quando o cidadão perde a convicção de que existe alguém disposto a garantir a ordem, instala-se um vazio. E o vazio, em política, nunca permanece vazio.
Ceuta continua desenhada nos mapas. Mas há fronteiras que começam a desaparecer muito antes da tinta se apagar.
Filipe Carvalho