"Manosfera: nem tradição, nem revolta" in Dextravox
Há erros que merecem ser examinados antes de serem condenados. Não porque sejam mais sábios, mas porque são mais reveladores. A manosfera é um desses casos. O homem que adere a ela engana-se acerca da cura, mas não necessariamente acerca da doença; e é muitas vezes mais instrutivo estudar a origem de uma ilusão do que escarnecer daqueles que nela acreditam.
Quem observe estes jovens verá que não nasceram do excesso de autoridade, mas da sua ausência. Cresceram num mundo em que quase todas as instituições encarregadas de formar o carácter perderam confiança em si próprias. A família enfraqueceu, a figura paterna tornou-se hesitante ou distante, e a passagem da juventude à idade adulta deixou de possuir os seus antigos marcos. Não admira, pois, que procurem mestres onde os encontrem. O extraordinário não é que os encontrem num ecrã; é que os encontrem ali em tão grande número.
A mesma época que privou estes homens de orientação ofereceu-lhes também, uma compensação enganadora. Em vez de lhes ensinar o que é a autoridade, ensinou-lhes a desejar o poder; em vez de lhes mostrar o valor da disciplina, ensinou-lhes a convertê-la num instrumento de competição. Assim, aquilo que se apresenta como revolta contra o mundo moderno é frequentemente apenas uma das suas expressões mais fiéis.
O chamado “homem de alto valor” é um exemplo curioso desta contradição. A expressão que pretende celebrar a excelência masculina; na realidade, denuncia a influência de uma linguagem que já não sabe falar senão em termos de mercado. O homem deixa de ser julgado pela sua honra, pelo seu carácter ou pela sua capacidade de servir algo superior a si mesmo; e passa a ser avaliado como um activo empresarial. O vocabulário mudou pouco desde os pregões da bolsa. Mudou apenas o objecto das transacções.
O mesmo se sucede na maneira como se fala das relações entre homens e mulheres. Onde outrora havia mistério, obrigação e continuidade, encontramos hoje estatísticas que medem aquilo que só possui valor porque escapa à medida. Não é uma nova moralidade que surge aqui, mas a extensão de um velho hábito moderno: reduzir a quantitativo aquilo que pertence à ordem do qualitativo.
A manosfera imagina combater esta tendência; embora, e na verdade, se limite a aplicá-la a novos domínios. Conserva o método da época enquanto protesta contra os seus resultados; e talvez por isso os seus modelos de masculinidade produzam uma impressão tão estranha. São imagens de força sem finalidade, de confiança sem responsabilidade e de conquista sem continuidade. Parecem reproduções imperfeitas de algo mais antigo e mais sólido. A autoridade manosférica, não raras vezes, degenera em dominação; a coragem transformada em agressividade; a sabedoria patriarcal resvalada para a manipulação e o amor afunilado para a acumulação. O homem moderno, mesmo quando procura regressar às suas origens, leva consigo os vícios da época da qual pretende escapar.
Seria injusto atribuir toda a culpa a um só sexo. As deformações observam-se dos dois lados. Homens e mulheres acusam-se mutuamente dos males que padecem, quando muitas vezes são apenas participantes da mesma desordem. Cada um vê no outro a causa da sua infelicidade e não percebe que ambos obedecem aos mesmos princípios, respiram o mesmo ar moral e foram educados pelas mesmas ilusões. A competição substituiu a cooperação e a afirmação do eu substituiu a pertença a algo mais vasto.
É por isso que o problema não pode ser resolvido por uma simples inversão de papéis. Não basta exaltar mais a masculinidade ou mais a feminilidade, se ambas continuarem separadas de qualquer finalidade superior. O que falta não é intensidade, mas orientação. Uma sociedade não se recompõe multiplicando desejos individuais; mas recompõe-se quando volta a reconhecer deveres comuns.
As coisas humanas necessitam de uma ordem que as transcenda. O homem e a mulher não encontram a sua dignidade na rivalidade, mas na participação numa obra que nenhum dos dois poderia realizar sozinho. A família, a continuidade entre gerações e a fidelidade a um povo ( aos mortos e para com os que ainda não nasceram )— são conceitos que podem parecer antigos, mas são precisamente estas antigas realidades que sustentaram a vida humana durante mais e melhor tempo.
Não existe uma fórmula capaz de restaurar imediatamente o que foi perdido. As sociedades não regressam atrás como um viajante regressa pelo mesmo caminho. Contudo, os homens continuam a necessitar de um princípio que os oriente. Uma estrela distante não deixa de servir de guia por ser inalcançável. Pelo contrário: é precisamente por permanecer acima de nós que nos impede de vaguear sem destino.
A fraqueza fundamental da manosfera reside justamente aqui. Julga combater a modernidade, mas combate-a com os seus próprios instrumentos, adopta os seus pressupostos e aceita a sua linguagem. Enquanto assim for, a sua rebelião permanecerá prisioneira daquilo que pretende negar. E nenhuma revolta triunfa quando transporta consigo, desde o início, a marca do inimigo que combate.
Filipe Carvalho