O homem que Churchill Admirava: A verdade incómoda sobre Mussolini
Crónica por Filipe Carvalho
Há verdades que o tempo trata de sepultar sob camadas de conveniência moral. Uma delas é esta: Winston Churchill, o herói imortal da democracia ocidental, o homem que resistiu a Hitler quando toda a Europa dobrava os joelhos, admirava profundamente Benito Mussolini. Não discretamente, não em privado — mas em público, com entusiasmo e sem pudor.
Em Janeiro de 1927, após uma visita a Roma, Churchill declarou à imprensa: "Se eu fosse italiano, tenho a certeza de que teria estado inteiramente convosco, do início ao fim, na vossa luta triunfal contra os apetites e as paixões bestiais do Leninismo." Estas palavras não foram proferidas num momento de fraqueza ou de ignorância; foram ditas por um homem que sabia exactamente o que fazia e o que dizia, numa conferência de imprensa em Roma, perante jornalistas de todo o mundo.
E não ficou por aqui. No mesmo ano, referindo-se ao Duce em declarações amplamente reproduzidas pela imprensa britânica, Churchill afirmou: "Não posso deixar de me sentir encantado, como tantos outros têm sentido, pelo seu porte gentil e simples e pela sua calma e desapaixonada deportação, apesar de tanta adulação." O herói de Dunquerque rendido aos pés de um ditador italiano. Que deliciosa ironia.
Mas o mais revelador de tudo foi o que Churchill escreveu nos seus artigos para o Evening Standard, em 1938 e já com a Europa a cheirar a pólvora, onde classificou Mussolini como "o maior legislador vivo". Uma afirmação de uma generosidade desconcertante, tendo em conta que veio de um político que se gabava de defender a liberdade parlamentar.
O que é que isto nos diz? Diz-nos que, apesar de não existirem estadistas santos, Mussolini não seria o monstro caricato que a historiografia do pós-guerra tratou de fabricar para consumo das massas. Era um estadista que, apesar de controverso, impressionava os maiores homens do seu tempo. Lloyd George visitou-o e saiu maravilhado. Mahatma Gandhi referiu-se a ele como "um dos grandes estadistas do nosso tempo". O próprio Franklin Roosevelt, o paladino da democracia americana, escreveu numa carta de 1933: "Acompanho com prazer e admiração o que Mussolini tem feito."
Não eram ingénuos, e muito menos seriam fascistas disfarçados. Eram homens inteligentes que reconheciam num outro homem inteligente: competência, determinação e uma visão de ordem que o caos liberal da época reclamava com urgência.
A Itália de Mussolini, convém recordar, construiu estradas, drenou pântanos, combateu a máfia no Sul, criou um Estado social rudimentar mas funcional, e fez do país uma potência respeitada no concerto das nações — tudo em menos de duas décadas. Os comboios, dizem, chegavam a horas. É uma anedota, certamente, mas por detrás de qualquer anedota existe uma verdade maior: houve ordem onde havia caos e houve um projecto onde só havia deriva.
Churchill não só sabia disso, como ainda admirava isso. E só deixou de o dizer em voz alta quando a aliança com Hitler tornou politicamente impossível elogiar o aliado de Hitler. Não foi uma conversão moral, mas um cálculo estratégico; na medida em que Churchill era, acima de tudo, um pragmático.
Há que reconhecer que a história é muito mais complexa do que os manuais escolares permitem. E que quando o maior ícone da democracia do século XX admirava sem reservas um líder que hoje chamamos (em tom de insulto) de fascista, talvez devêssemos ter a humildade de perguntar: o que é que Churchill via que nós nos recusamos a ver?
A resposta, claro, há-de ser desconfortável. Mas é precisamente por isso que vale a pena questionarmo-nos.
"Mussolini é um génio político." — Winston Churchill, em declarações à imprensa italiana, Janeiro de 1927.
BIBLIOGRAFIA
Citações de Churchill sobre Mussolini
— Churchill, W.S., declarações à imprensa em Roma, Janeiro de 1927. Reproduzidas no The Times (Londres), 21 de Janeiro de 1927, e amplamente citadas em:
— Bosworth, R.J.B., Mussolini, Arnold Publishers, Londres, 2002.
— Brendon, Piers, The Dark Valley: A Panorama of the 1930s, Alfred A. Knopf, Nova Iorque, 2000.
— Churchill, W.S., artigos de opinião no Evening Standard, Londres, 1937–1938. Compilados parcialmente em:
— Churchill, W.S., Step by Step: 1936–1939, Thornton Butterworth, Londres, 1939.
Gandhi sobre Mussolini
— Fischer, Louis, The Life of Mahatma Gandhi, Harper & Row, Nova Iorque, 1950. (Gandhi visitou Mussolini em dezembro de 1931 e referiu-se a ele em termos elogiosos em cartas e declarações da época.)
Roosevelt sobre Mussolini
— Diggins, John P., Mussolini and Fascism: The View from America, Princeton University Press, Princeton, 1972. (Contém análise detalhada das cartas e declarações de Roosevelt sobre Mussolini no início dos anos 1930.)
Lloyd George sobre Mussolini
— Owen, Frank, Tempestuous Journey: Lloyd George, His Life and Times, Hutchinson, Londres, 1954.
Obras gerais de contexto histórico
— Payne, Stanley G., A History of Fascism: 1914–1945, University of Wisconsin Press, Madison, 1995.
— De Felice, Renzo, Mussolini il fascista, Einaudi, Turim, 1966–1968. (A biografia italiana de referência, em vários volumes.)
— Mack Smith, Denis, Mussolini, Weidenfeld & Nicolson, Londres, 1981.