"O Estado contra os seus" in Observador



O assassínio de Henry Nowak em Southampton chegou-me como chegam estas notícias que o tempo presente fabrica em série e depois descarta — pelo ecrã, entre uma publicidade e outra, entre um escândalo e o seguinte — mas ficou. Ficou porque não era mais uma notícia, era um sintoma; e os sintomas, ao contrário das notícias, não se descartam: acumulam-se em silêncio no corpo dos adoecidos até que o médico, ou a autópsia, lhes dê finalmente o nome que sempre tiveram.

O que é que ficou desta notícia, exactamente? Não a morte em si porque a morte é antiga, é familiar, é o único horizonte infalível que nunca falhou a nenhum povo. O que ficou foram as reacções. Ou melhor: quem chorou e quem não chorou. Quem foi para as ruas e com que palavras. Quem invocou a justiça e quem invocou a ordem. Quem disse isto e aquilo não nos representa e quem disse aqueloutro era inevitável. 

O nosso ilustre Jaime Nogueira Pinto observou, numa entrevista ao iOnline em Janeiro de 2017, que a política é, antes de tudo, uma arena de luta pelo poder — e que confundir essa arena com um fórum de debate racional é o um erro inaugural, e quiçá o mais custoso, de quem quer compreender o mundo. Tenho pensado muito nessa ideia. Penso nela quando leio os comunicados das instituições europeias, redigidos naquela prosa fofa que não fere nem convence; e que não mente completamente mas que anestesia. Tenho pensado nela quando ouço os porta-vozes do "pensamento correcto" explicar que os acontecimentos de Belfast são complexos, que é preciso contextualizá-los e que a resposta não pode ser a simplificação. E enquanto dizem isto, enquanto fabricam a complexidade como um escudo contra a clareza, o sangue daquele crime no passeio já secou e a memória colectiva já começou o seu trabalho de esquecimento organizado.

Não há complexidade que justifique a seguinte pergunta simples: mas quem perguntou aos povos europeus?

Quem lhes perguntou se aceitavam a transformação dos seus bairros, das suas escolas, dos seus padrões de segurança, da textura quotidiana das suas vidas? Quem lhes deu, não a oportunidade retórica, mas a oportunidade real, vinculativa e soberana, de dizer não? Durante décadas, a preocupação com a imigração foi tratada como uma patologia moral. Quem a exprimia era suspeito, era classificado e era marginalizado com aquela eficiência suave que os sistemas modernos aperfeiçoaram ao ponto de dispensar a violência física. E entretanto o mundo mudava, e quem ousava descrevê-lo com precisão e lucidez era, esquizofrenicamente, acusado de fabricar exactamente aquilo que descrevia.

Hipólito Raposo, esse homem de Coimbra e da Serra da Gardunha que em 1909, sendo ainda estudante de Direito na Universidade de Coimbra, já sabia que as elites do seu tempo governavam com o costume de não perguntar e sem pedir licença. Escreveu na Revista Coimbrã, numa crónica de 29 de Novembro desse ano, que a história de Portugal era, naquele momento, «uma crise de caracteres que nos conduziu ao estado presente». Recordo essa frase como um diagnóstico em aberto. A crise de caracteres de que falou parece não ter sido resolvida. Foi exportada, ampliada, institucionalizada, e rebaptizada com o nome de democracia.

A palavra democracia — que os gregos cunharam para designar o poder do povo, demos e kratos, uma palavra com dois milénios de história — significa hoje, na prática quotidiana das instituições europeias, uma coisa muito diferente: a gestão técnica de populações heterogéneas por elites que se legitimam através do procedimento eleitoral mas que governam segundo uma agenda que o eleitorado nunca aprovou explicitamente e que não pode, pelos mecanismos normais da política democrática, rejeitar. Uma espécie de tirania mais subtil que, a longo prazo, se torna mais corrosiva: numa democracia reduzida a liturgia, esvaziada de substância, mantida como forma enquanto o conteúdo escapa por todas as fendas do sistema.

Como ainda não tivemos um Henry Nowak português com o mesmo impacto, continuamos a poder iludir-nos com a ficção de que a democracia portuguesa é uma livre discussão de ideias, que as guerras identitárias são importadas e que a nós não nos acontece. Essa ilusão é um luxo. Porque quando a política abandona a identidade, a identidade regressa. Mas já não como debate, mas, infelizmente, como conflito. E o conflito marginal — esse sim — não pede verdadeiramente licença às prioridades dos moderados, nem aguarda que os homens prudentes encontrem as palavras certas.
Os homens prudentes têm, portanto, de encontrá-las antes. É para isso, entre outras coisas, para que serve o pensamento.

Filipe Carvalho 

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