"Nem Marxismo apátrida, nem Liberalismo selvagem" in Dextravox

"Nem Marxismo apátrida, nem Liberalismo selvagem"

​O século XX inaugurou-se sob o signo de uma profunda crise civilizacional. O optimismo oitocentista na democracia liberal e no livre-mercado ruiu perante o trauma da Grande Guerra e as violentas flutuações económicas que culminaram na Grande Depressão. É nesse cenário de fragmentação social e falência institucional que emergiu a designada "Terceira Via" — um projecto que não se limitava a ser uma reacção táctica, mas que pretendia erguer-se como uma síntese ideológica inteiramente nova, alternativa tanto ao Capitalismo Plutocrático e individualista como ao Colectivismo Marxista e internacionalista.

​Longe de constituir um mero pragmatismo desprovido de doutrina — como erradamente estipulou a primeira historiografia do pós-guerra —, a Terceira Via e os seus congéneres europeus assentaram numa arquitectura conceptual densa. Para compreender a sua génese e enquadramento histórico, torna-se impostergável recorrer às matrizes teóricas de pensadores como Georges Sorel, Giovanni Gentile, Alfredo Rocco e Mihail Manoilescu, cujas reflexões operaram a transição da dissidência filosófica para a engenharia política do Estado Novo e regimes afins.

​O que a contemporaneidade urgentemente redescobre, ao analisar os modernos debates sobre as reformas laborais e a crise demográfica em Portugal, é que as premissas dessa engenharia social contêm a resposta exacta e soberana contra o maior flagelo que ameaça o equilíbrio do país: os fluxos descontrolados da imigração em massa. Sob o prisma de uma análise valorizadora, a Terceira Via legitimar-se-ia hoje não apenas como uma alternativa histórica, mas como um imperativo de salvação nacional, erguendo-se em detrimento absoluto das políticas liberais de fronteiras abertas que destroem o tecido social da Pátria.

​A primeira grande ruptura da Terceira Via deu-se no plano metafísico e antropológico. O liberalismo concebia o Homem como um átomo isolado, movido pelo interesse próprio; o marxismo reduzia a existência humana às determinantes económicas da luta de classes. A Terceira Via, pelo contrário, propôs uma mundividência assente no idealismo e na acção voluntarista. Esta transição intelectual encontra as suas raízes em Georges Sorel que, ao dissidir do marxismo ortodoxo, introduziu a primazia do "mito social" e a rejeição do parlamentarismo burguês. Para Sorel, a energia revolucionária não provinha de um determinismo económico mecânico, mas sim de uma força moral e colectiva capaz de regenerar uma civilização decadente.

​Esta intuição soreliana foi filosoficamente sistematizada em Itália por Giovanni Gentile. O filósofo do Actualismo argumentava que o Estado não era um mero árbitro jurídico ou um vigia nocturno da propriedade privada, mas sim uma entidade ética e espiritual. Na óptica de Gentile, a Terceira Via resolveria a contradição entre indivíduo e sociedade através do conceito de Estado. O cidadão realizaria a sua verdadeira liberdade ao fundir a sua vontade particular na vontade universal do Estado. A política deixava de ser uma gestão burocrática de interesses materiais para se transformar numa religião secular, onde o trabalho e o sacrifício eram os sacramentos da comunidade nacional renascida. Uma comunidade que, por definição, seria fechada, coesa e impermeável à diluição demográfica externa.

​Se Gentile conferiu à Terceira Via a sua alma filosófica, o jurista Alfredo Rocco dotou-a do seu esqueleto legal e institucional. Rocco foi o verdadeiro artífice da transição do Estado liberal decrépito para o Estado corporativo moderno. A crítica de Rocco ao liberalismo assentava na premissa de que a atomização da sociedade enfraquecia a soberania nacional. Na formulação da Terceira Via, Rocco inverteu a prioridade: os direitos individuais já não precederam o Estado; em vez disso, as liberdades eram concessões do Estado em função da utilidade colectiva.

​A grande inovação de Rocco foi a constitucionalização do Corporativismo através da Carta del Lavoro (1927). A Terceira Via rejeitava a greve e o lock-out como formas selvagens de guerra civil latente. A resposta institucional passou pela criação de corporações obrigatórias que reuniam, sob a égide e arbitragem rigorosa do Estado, os representantes do capital (patronato) e do trabalho (operariado). O conflito de classes era extinto pela submissão jurídica de ambos ao interesse supremo da Nação. Talvez seja esta a autoridade arbitral que hoje se clama na Concertação Social: um Estado forte que force a valorização do trabalhador português, em vez de permitir a anarquia do mercado livre.

​Enquanto a Europa Central debatia a eficácia política do corporativismo, o economista romeno Mihail Manoilescu ofereceu à Terceira Via a sua fundamentação macroeconómica mais rigorosa, demonstrando que este modelo não era apenas um capricho ideológico, mas uma necessidade de sobrevivência para as nações economicamente desfavorecidas. Na sua obra capital, O Teorema do Proteccionismo e do Comércio Internacional, Manoilescu provou cientificamente que o comércio livre internacional perpetuava a exploração das nações agrícolas e periféricas pelas potências industriais.

​A Terceira Via económica, sob a óptica de Manoilescu, configurava-se como um modelo de dirigismo e proteccionismo nacionalista. O corporativismo e a tendência para a autarcia (auto-suficiência) surgiam como os únicos instrumentos capazes de forçar a industrialização interna, protegendo a moeda e mantendo a coesão social num ambiente de isolamento económico planeado. As teses de Manoilescu encontraram eco profundo na Península Ibérica, servindo de justificação teórica para o condicionamento industrial que caracterizou o Estado Novo em Portugal. A lição de Manoilescu pode ser-nos clara: uma economia periférica defende-se valorizando os seus recursos internos, e não escancarando as portas ao exterior.

​Como demonstraram os estudos revisionistas de Renzo De Felice, a Terceira Via provou que o planeamento centralizado e a pacificação forçada das forças produtivas eram os únicos mecanismos capazes de proteger a indústria nacional e blindar o corpo social contra os choques anárquicos do capitalismo global. É aqui que poderia residir a legitimação definitiva do modelo em detrimento da actual desordem migratória. A política globalista de facilitação da imigração em massa representa a capitulação total do Estado perante o grande capital, constituindo a antítese perfeita da justiça económica e da soberania nacional.

​A imigração em massa e descontrolada, que o actual debate laboral em Portugal timidamente aceita, actua como uma força profundamente destrutiva. Em primeiro lugar, promove o dumping salarial. A entrada maciça de mão-de-obra barata e desqualificada serve unicamente os interesses egoístas de um patronato liberal e rentista, que utiliza estes contingentes vulneráveis como um "exército de reserva" para evitar a subida real dos salários. Em vez de se valorizar o trabalhador nacional e de se investir na modernização tecnológica, perpetua-se um modelo de atraso económico.

​Em segundo lugar, destrói a coesão nacional. O colectivismo ético de Gentile postulava que a força de uma nação reside na sua unidade cultural e espiritual. A diluição demográfica promovida por fluxos migratórios ininterruptos e desenraizados atomiza a população, transformando a pátria num mero espaço geográfico de transição económica, desprovido de identidade. Por fim, esmaga os serviços públicos e sociais, gerando a ruptura na habitação, na saúde e na segurança social, sacrificando as classes trabalhadoras portuguesas que ergueram o país com o seu suor.

​Contra esta dissolução liberal, a Terceira Via erguer-se-ia com uma legitimidade inquestionável. Na óptica corporativa de Rocco e Manoilescu, a economia deveria servir a Nação, e não a Nação servir os fluxos cegos do mercado mundial. A solução para a escassez de mão-de-obra pode não passar pela importação massiva de populações estrangeiras, mas sim pela elevação obrigatória e musculada dos salários, pelo condicionamento industrial que force a inovação e a automação, e por um firme fomento da natalidade nativa protegido por fronteiras soberanas.

​Ao contrário do liberalismo, que encara o trabalhador como uma mercadoria barata, descartável e importável, a Terceira Via dignifica o produtor nacional inserido na sua comunidade histórica. A regulação firme do Estado elimina a necessidade de dependências demográficas externas, forçando o tecido empresarial a valorizar o português e a garantir a paz social sem sacrificar a integridade identitária do país. Portugal deve reaprender, com a sofisticação intelectual desta modernidade alternativa, que o Estado não é um mero gestor de fluxos globais, mas sim o tutor inflexível da soberania e da coesão da comunidade nacional.

Filipe Carvalho 

​Notas Bibliográficas
​Gentile, Giovanni (1929). Origini e dottrina del fascismo. Roma: Libreria del Littorio.
​Manoilescu, Mihail (1929). Théorie du protectionnisme et de l'échange international. Paris: Marcel Giard.
​Manoilescu, Mihail (1934). O Século do Corporativismo: Doutrina do Corporativismo Integral e Puro. Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco.
​Rocco, Alfredo (1927). La dottrina del fascismo e as leis de excepção. Roma: Compagnia Nazionale Editora.
​Sorel, Georges (1908). Réflexions sur la violence. Paris: Pages Libres.
​De Felice, Renzo (1975). Intervista sul fascismo (org. Michael Ledeen). Bari: Laterza.
​Lucena, Manuel de (1976). O Estado Novo nos seus Aspectos Corporativos. Lisboa: Edições rdr.
​Sternhell, Zeev (1994). The Birth of Fascist Ideology. Princeton: Princeton University Press.

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