"A Europa e a Figueira da Foz" in Observador
Há coisas que acontecem longe das câmaras e que por isso mesmo acontecem de verdade.
A Figueira da Foz fica a cento e tal quilómetros do Porto, tem um casino art déco que o tempo foi comendo por dentro, um estuário largo onde o Mondego se rende ao Atlântico com uma espécie de cansaço antigo, e não é o género de lugar onde se espera que a história bata à porta. Mas a história tem esse feitio, aparece onde não foi convidada, senta-se sem pedir licença, e quando se vai embora já nada está como estava, embora se demore tempo a perceber porquê.
Foi ali, num sábado de Maio que os jornais de Lisboa mal noticiaram e os de Bruxelas fingiram não ter visto, que quatrocentas ou quinhentas pessoas — alemães, espanhóis, holandeses, americanos e portugueses — se reuniram para dizer em voz alta aquilo que a "velha" Europa pensa em voz baixa há trinta anos.
A palavra é remigração.
Conhecemos esse grito. Fomos educados nele, alimentados por ele, e aprendemos a reconhecer o momento exacto em que a discussão termina e a gritaria começa; que é sempre o momento em que o argumento do outro lado se esgotou mas o poder ainda está do mesmo lado, e então não há argumento que chegue, há apenas o grito, e o grito é insuficiente, cada vez mais insuficiente.
Porque entretanto as cidades mudaram. As escolas mudaram. Os bairros que os nossos pais conheciam mudaram de nome sem que ninguém os tivesse consultado, e os filhos dos nossos filhos crescerão em países que têm o mesmo nome nos passaportes mas que são uma outra coisa, uma coisa que ainda não tem nome mas que toda a gente sente quando anda na rua e olha à volta e pensa, sem o dizer a ninguém, isto não era assim.
E não era assim.
Björn Höcke veio da Alemanha; da Alemanha que pune os seus dissidentes com uma aplicação da lei que envergonharia certas repúblicas de segunda categoria, a mesma Alemanha que o levou a tribunal por encerrar um discurso com as palavras Alles für Deutschland, "tudo pela Alemanha", frase que o Estado alemão considera ilegal e que Höcke disse ser apenas um "ditado quotidiano", o que pode ser verdade ou mentira mas diz tudo sobre o estado de um país que criminalizou certas palavras na esperança de poder também criminalizar os pensamentos que as precedem. Essa Alemanha, a mesma, não consegue ainda assim impedir que o Alternativa para a Alemanha seja o partido mais votado em metade do país; o que diz qualquer coisa sobre a distância entre o que o poder quer que o povo pense e o que o povo efectivamente pensa quando está sozinho na cabine de voto e ninguém o vê.
Rocío de Meer trouxe o Vox; a deputada que disse em Madrid o que toda a gente sabia mas ninguém ousava dizer com números: que existe «o direito a querer sobrevivir como pueblo», que a Espanha não pode suportar mais entradas, que «ciudadanía no quiere decir que pertenezcas a un país, es solo un pedazo de papel» — e que ao dizer isto não inventou nada, apenas tornou visível o que estava escondido debaixo da superfície polida do debate permitido. Cidadania e/ou pertença são conceitos distintos.
Os americanos trouxeram Greg Bovino, um antigo comandante da Guarda de Fronteiras dos Estados Unidos, um homem que passou a vida a ver chegar gente pelo deserto do Arizona e que sabe portanto de que é que estamos a falar quando falamos de fronteiras, não como abstracção geopolítica mas como uma coisa física, como terra e arame e gente que caminha de noite — e cuja presença provocou nos jornais americanos a habitual convulsão antifascista que já não assusta ninguém, sendo talvez o sinal mais claro de que algo mudou.
Eva Vlaardingerbroek, a holandesa que em Budapeste disse o que o establishment europeu não perdoou — «the great replacement is no longer a theory, it's reality», a grande substituição já não é uma teoria, é a realidade, e se não dermos a volta à situação significará o fim da nossa civilização — esteve ali, naquela cidade balnear da Beira Litoral, a dizer a mesma coisa com a mesma voz calma de quem sabe que a calma é mais perturbadora do que o histerismo.
E Martin Sellner organizou, o mesmo Sellner que, no livro Remigração: Uma Proposta, diagnosticou com precisão cirúrgica o mal europeu: aquela política da culpa que tornou a preservação do próprio povo moralmente suspeita e a sua substituição demográfica numa fatalidade aceite, quase desejada, como se o Ocidente tivesse decidido, em determinado momento, que merecia desaparecer e que a única virtude que lhe restava era a de o fazer em silêncio e sem se queixar.
Portugal foi representado por Afonso Gonçalves. Um patriota nascido no ano 2000 que nas vésperas da cimeira escreveu nas redes sociais apenas isto, e com a secura de quem não precisa de mais palavras: «a remigração é inevitável». O país que construiu meio mundo e depois se esqueceu de si próprio com uma rapidez e uma alegria que ainda hoje espantam quem pensa nestas coisas, apareceu ali com uma voz nova que tem a brutalidade da juventude e a impaciência de quem decidiu que não ia ficar calado.
Portugal, seria inevitável chegar aqui?
Há uma melancolia específica em ser português e pensar na história de Portugal; uma melancolia que não é como a saudade. A saudade é doce, mas aqui é outra coisa mais áspera, que é a consciência de ter sido muito e ter deixado de o ser sem combate, quase com alívio, como quem larga um fardo que afinal não era um fardo mas era tudo o que tinha.
Depois do 25 de Abril aconteceu qualquer coisa de estranho: um país que resistira décadas a pressões de todas as espécies desfez-se de si próprio em meses, largou os territórios, largou a identidade, largou a memória, quase como se tivesse estado à espera de uma licença para se apagar. E durante cinquenta anos ficou apagado e envergonhado da sua própria história, ensinando os filhos a pedir desculpa por coisas que os filhos não fizeram a pessoas que as não sofreram.
Que seja agora aqui, numa cidade balnear e, porque não, com um casino art déco e um estuário cansado; que alguém levante a voz para dizer que há um nós que vale a pena preservar.
A direita europeia tem um vício antigo e quase constitutivo: a fragmentação doutrinária, o prazer quase masoquista da divisão e a suspeita permanente entre correntes que partilham noventa por cento das preocupações e se destroem mutuamente pelos dez por cento restantes.
Em política, como na guerra, a desunião dos que deveriam combater juntos é o maior aliado do adversário. E o adversário sabe-o, e cultiva-o com paciência e eficácia, porque sabe que uma direita dividida é uma direita inofensiva, e uma direita inofensiva é o melhor dos mundos possíveis para quem governa.
Na Figueira da Foz esse vício esteve, ao que parece, ausente. Vanguardistas e conservadores, europeus e americanos, identitários e nacional-conservadores sentaram-se à mesma mesa e saíram de lá de pé. Se foi disciplina ou conjuntura, o tempo dirá. Mas não é pouco.
Trump fechou a fronteira sul. Suspendeu os refugiados e iniciou desnaturalizações. O aparelho de imigração americano tornou-se, pela primeira vez em décadas, uma instituição com dentes e vontade de os usar. São factos e não retórica, não promessas de campanha, mas factos que merecem ser ditos como tal.
E no entanto o nacionalismo americano continua a ser uma coisa disforme, capturada por conspirações e por uma incapacidade congénita de transformar o instinto em algo programável. A Europa, que os americanos olharam durante anos com a condescendência de quem se julgava imune, está neste momento mais articulada. Sabe o que quer. Não sabe ainda se consegue. Mas sabe o que quer, que é já alguma coisa; e talvez o princípio de tudo.
A remigração parte de uma premissa que seria banal se o nosso tempo não tivesse tornado o óbvio em tabu: que a composição de um povo não é um acidente nem uma fatalidade, que é o resultado de escolhas e pode portanto ser alterada por outras escolhas. Que existe um sujeito colectivo com direito à sua própria continuidade, e que afirmá-lo não é ódio nem nostalgia nem nenhuma das palavras com que se encerram as discussões antes de começarem.
É apenas a mais antiga das perguntas: quem somos, e queremos continuar a sê-lo?
Tudo o resto, os institutos, os manifestos, os actos legislativos, as conferências em cidades balneares da Beira Litoral são uma resposta sintomática a essa pergunta. Uma resposta ainda incerta, ainda dispersa, ainda a aprender a andar. Mas uma resposta.
O Mondego continua a desaguar no Atlântico com um cansaço que parece de séculos.
Filipe Carvalho