"Salazar: quando Portugal aprendeu a parecer eterno" in Dextravox

"Salazar: quando Portugal aprendeu a parecer eterno"

Há figuras na história que, pela persistência do seu método e pela coerência da sua visão, parecem dotadas de um raro dom de transmutação. A António de Oliveira Salazar foi frequentemente atribuído esse "toque de Midas", não tanto como uma metáfora de riqueza fácil, mas como o símbolo de uma capacidade singular de disciplinar realidades desagregadas.

Não foi tanto um criador de riquezas, à maneira literal do mito de Midas, mas o seu "toque", não produzindo ouro visível; produziu antes, um bem raro e silencioso, sem o qual nenhuma grandeza se sustentou: estabilidade.

Quando assumiu a pasta das Finanças em 1928, a República, no seu fervor, era um corpo exausto. As finanças públicas estavam descontroladas, a moeda era instável, o crédito externo estava comprometido e deambulava uma crónica incapacidade de execução. Portugal encontrava-se num estado de dispersão quase entrópica e foi necessário, antes de tudo, recentrar-se. Foi exactamente isso que Salazar tentou fazer, com a tarefa ingrata de impor limites, de recusar facilidades e de restituir ao Estado uma consciência de si.

Quando afirmou: “Sei muito bem o que quero e para onde vou” (discurso na Assembleia Nacional, Lisboa, 30 de Julho de 1930), Salazar revelava que a arquitectura institucional do Estado Novo seria, não uma obra de retórica, mas, sobretudo algo metódico na centralização de decisão, de rigor técnico e que assumiria uma desconfiança visceral do improviso político. O seu primeiro "toque" deu-se precisamente onde o Estado mais sangrava, nas contas públicas. E com uma ortodoxia quase ascética, impôs o equilíbrio orçamental, reduziu a despesa, reorganizou a cobrança fiscal e restaurou a credibilidade externa. 

O equilíbrio orçamental que alcançou não foi apenas uma vitória técnica; foi um gesto político de fundo moral. Um "toque de Midas" que se exerceu também por uma constelação de homens que, por convicção ou disciplina, deram continuidade à famosa declaração "Nada contra a Nação, tudo pela Nação" (discurso, Lisboa, 28 de Maio de 1936); abraçando um lema ao qual deram um corpo institucional.

Antonio Ferro foi, entre eles, o mais sofisticado intérprete do salazarismo;  procurando dar-lhe uma forma doutrinária e coerência jurídica. António Ferro não foi apenas um colaborador de António de Oliveira Salazar; foi, em muitos aspectos, o intérprete estético e simbólico do regime.

António Ferro não foi um produto do regime; foi, em larga medida, um dos seus artífices mais subtis. Cosmopolita, inquieto, modernista e viajado; vinha de um mundo onde a política já era um espectáculo e onde a estética começava a confundir-se com o poder. Se, por um lado, Salazar governava através  dos cálculos matemáticos e financeiros; por outro, Ferro percebeu que o salazarismo, sendo eficaz, corria o risco de ser invisível.

A invisibilidade, em política, é uma forma de fracasso. Um regime que não se mostra, que não se representa e que não se narra, acaba por existir apenas para quem o administra e não para quem o vive; e foi isso que António Ferro tentou corrigir.

Como director do SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), fez algo que vai muito além da propaganda no sentido vulgar. Com o seu pensamento esteta e sofisticado, fez política por outros meios e construiu uma ideia de Portugal que exaltava o folclore, as exposições e o poder da ruralidade. Tudo isso não terá sido inocente nem, tão pouco, decorativo e terá transformado a forma como o país se via a si próprio.

A Exposição do Mundo Português não foi apenas um evento comemorativo; foi uma operação que reuniu passado, império, tradição e ordem numa imagem devidamente inaltecente da portugalidade. No fundo, António Ferro não foi apenas o propagandista de Salazar. Foi muito mais do que isso, foi o seu "tradutor".

Há aqui uma leitura que pode ser levada mais longe e, até com alguma ousadia, podemos constatar que o Prof. António de Oliveira Salazar revelou um instinto que não era apenas político, mas quase estratégico no plano da percepção. Um homem que aparentava desconfiar da modernidade percebeu, sem abdicar da sua natureza, que a ordem precisava de ser vista e, até certo ponto, desejada.

Pode, de facto, dizer-se, e sem grande abuso conceptual, que aquilo a que hoje chamamos metapolítica já operava, ainda que sem nome, no interior do salazarismo. Metapolítica, neste sentido, é o trabalho invisível sobre os pressupostos valores, símbolos e linguagem do imaginário colectivo que antecedem e condicionam a própria política. E foi precisamente nesse plano que António de Oliveira Salazar, com a mediação decisiva de António Ferro, actuou, não apenas legislando ou administrando, mas promovendo uma certa ideia de Portugal, de ordem e de continuidade histórica que se tornava natural e necessária aos olhos de muitos.

E assim, no termo desta reflexão, a metáfora do "toque de Midas" revela o seu verdadeiro alcance. Não como um milagre económico nem como uma fábula ingénua de prosperidade automática, mas como uma rara capacidade de impor a noção de permanência onde (e quando) tudo parecia transitório. E fê-lo compreendendo, talvez melhor do que muitos dos seus críticos e até dos seus seguidores, que a política, sem cultura, é mecânica, e que a cultura, sem política, é impotente.

Nesse ponto de intersecção, onde as ideias se tornam ordens e as ordens se fundem com as ideias, residiu o núcleo mais profundo do seu poder. Quando declarou "Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio" (Braga, 28 de Maio de 1936), Salazar fixou os limites dentro dos quais o próprio regime se quis eterno.

E talvez por isso o seu legado continuou a inquietar. Não apenas pelo que fez, mas por fazer demonstrar que houve momentos na história em que a forma valeu mais do que a expansão, em que a medida se sobrepôs ao impulso e em que o rigor se impôs à vertigem. 

“A política não é tudo; mas sem política não há nada” (discurso, década de 1930). Uma frase que condensou a tensão entre o poder e os seus limites. Se quisermos, entre o que se construiu e o que, inevitavelmente, escapou. E talvez seja este o seu último e mais persistente "toque de Midas": não a estabilidade que construiu, nem o regime que sustentou, mas a inquietação que deixou. Uma inquietação que continua a atravessar Portugal, obrigando-o, queira ou não, a interrogar-se sobre aquilo que foi e sobre aquilo que escolheu ser.

Filipe Carvalho 

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