"O COPCON e o delírio revolucionário " in Observador

"O COPCON e o delírio revolucionário"

​A História de Portugal, nas suas horas de maior angústia, pautou-se sempre por uma tensão dialéctica entre a ordem e o abismo. Contudo, o chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso) — inaugurou uma modalidade de caos que não visava apenas a substituição de uma elite, mas a extirpação da própria memória nacionalista da Pátria. No epicentro deste terramoto institucional surgiu o COPCON (Comando Operacional do Continente), uma espécie de guarda pretoriana de pendor jacobino de Robespierre e que, sob a máscara da "libertação", instaurou um regime de excepção onde o nacionalismo orgânico foi o alvo preferencial de uma purga sem precedentes.

​O COPCON (Comando Operacional do Continente) não foi uma unidade militar convencional; foi a materialização de uma utopia regressiva liderada por Otelo Saraiva de Carvalho. Para este condottiero — termo que aqui evoca a figura do chefe militar aventureiro e mercenário da Renascença, que actua por carisma pessoal e agenda própria acima da lei — a legitimidade não emanava das urnas, mas de uma mística revolucionária que via no exército o "braço armado do Povo".

​A natureza do COPCON era intrinsecamente avessa ao Direito. O seu comandante não escondia o desprezo pelas "burguesias" do processo judicial e, em Agosto de 1975, num comício em Almada e no auge do "Verão quente", Otelo proferia aquela que ficaria como a frase fetiche do terror revolucionário português:
"Já sinto um certo arrependimento por não termos metido no Campo Pequeno todos os contra-revolucionários. Infelizmente ainda não temos um Campo Pequeno, mas talvez venhamos a ter." (Fonte: Diário de Notícias, 26 de Agosto de 1975)

​Esta evocação do Campo Pequeno como um recinto de concentração sinalizava o fim do pluralismo e o início de uma perseguição sistemática a qualquer forma de patriotismo que não se revisse no catecismo marxista ou terceiro-mundista defendido pela ala radical do MFA (Movimento das Forças Armadas). ​O delírio de Otelo não floresceu no vácuo, mas num caldo de cultura servido por uma corte de oficiais-comissários, fascinados pela estética da força e para os quais a Constituição era um estorvo burguês onde o atropelo das garantias jurídicas seria um estimulante exercício de pedagogia revolucionária.

O Almirante Rosa Coutinho, conhecido como o "Almirante Vermelho", garantia a cobertura política no Conselho da Revolução, afirmando com desdém:
​"Em Portugal, não há lugar para partidos de direita. A direita é a reacção, e a reacção não tem direitos políticos numa revolução que se preze."
(Fonte: Expresso, Edição Comemorativa, 1975)

​Enquanto isso, no terreno, oficiais como o Major Tomé Pinto e o Capitão Ferreira do Amaral — este último à frente do radicalizado RALIS (Regimento de Artilharia Ligeira de Lisboa) — transformavam os quartéis em soviets de doutrinação. Para estes homens, a disciplina militar era um empecilho e a perseguição aos nacionalistas um dever pedagógico. Ferreira do Amaral foi peremptório:
"A nossa única disciplina é o serviço ao Povo e a destruição de todos os focos reaccionários, custe o que custar."
(Fonte: Intervenção na Assembleia do MFA, Julho de 1975)

A fúria higiénica do COPCON elegeu como alvo predilecto o nacionalismo português em todas as suas vertentes: desde os herdeiros da visão de António Sardinha até ao pacato patriotismo do Portugal profundo, todos foram metidos no mesmo saco do "fascismo" para gáudio dos inquisidores de turno. Do Integralismo à Maioria Silenciosa, passando por formações políticas como o PP (Partido do Progresso) e o PL (Partido Liberal). A metodologia era de uma eficácia inquisitorial, frequentemente alimentada por informações do SDCI (Serviço de Detecção e Controlo de Informações), que actuava como a nova polícia política do regime.

​"Nós prendíamos as pessoas e depois é que íamos ver se havia culpa formada ou não. A nossa preocupação era neutralizar a reacção."
(Fonte: Maria Manuela Cruzeiro, Otelo – O Rosto de Abril, 2009)

​Efectuavam-se rusgas nocturnas com mandados de captura assinados em branco, decapitando as elites políticas e económicas que pudessem oferecer resistência à "sovietização" da Pátria. Oficiais de elite, condecorados nas campanhas do Ultramar, viram as suas residências devassadas e a sua honra vilipendiada por milícias sob a protecção do COPCON.

O sentimento nacional, contudo, demonstrou possuir anticorpos e uma capacidade de reorganização que escapavam à compreensão puramente ideológica dos engenheiros do casuísmo, acabando por gerar uma resistência proporcional à força da repressão exercida. Acossado, o Portugal real refugiou-se no Norte e no exílio, cristalizando-se em movimentos como o ELP (Exército de Libertação de Portugal) e o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal). A violência do COPCON gerou a sua própria antítese, empurrando o país para a beira de uma guerra civil que só o 25 de Novembro logrou travar.

​Em Janeiro de 1975, Otelo ainda acreditava na invencibilidade do seu projecto:
"O COPCON é a garantia de que a extrema-direita não passará. E se for preciso passar por cima de certas liberdades individuais para garantir a liberdade do povo, passaremos."
(Fonte: Arquivo da RTP, Janeiro de 1975)

Ao pretenderem trocar a espessura da Nação histórica por uma quimera revolucionária de importação, Otelo e os seus pares converteram-se, involuntariamente, nos principais obreiros da regeneração das direitas, despertando o nacionalismo do seu letargo através do aguilhão da perseguição.

​O colapso deste espadachinismo marcou a desforra da realidade e a vitória da permanência histórica sobre o delírio de uma casta militar que se julgava predestinada. O fim deste ciclo foi o triunfo do bom senso sobre a febre autoritária de uma oficialidade que ignorou que a Pátria é uma herança de séculos, demasiado vasta para ser asfixiada pela soberba.

Filipe Carvalho 


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