MARCHA DE BRAGA: A TRAIÇÃO DO 28 DE MAIO in Dextravox
Cem anos volvidos sobre aquela manhã radiosa de Braga, radiosa como só o são as manhãs que precedem tempestades ou redempções. O 28 de Maio de 1926 permanece como o grande divisor de águas da contemporaneidade portuguesa, o marco a partir do qual os historiadores de boa fé se separam daqueles que exercem a história como se exerce uma vingança selectiva, e com os dentes à mostra e os olhos fechados. Para compreendermos a ascensão do General Gomes da Costa e a subsequente transição para a longa estabilidade do Estado Novo (para uns protectora e fecunda, para outros asfixiante, consoante o grau de saudade que se conserva pela anarquia); cumpre olharmos para o cenário de ruína moral e institucional que era a Primeira República, se ousarmos vê-la como uma tragédia grega encenada por actores de vaudeville.
O regime de 1910, nascido de um optimismo messiânico e racionalista, degenerara numa sucessão de gabinetes efémeros e num parlamentarismo ruidoso a que o povo, na sua sabedoria instintiva e inabalável que as elites nunca perdoam, ironicamente apelidara de "cadeira eléctrica".
Portugal era, em 1926, um país exausto de quarenta e cinco governos em dezasseis anos. Padecia de uma inflação que devorava as economias das classes médias como o caruncho devora o cedro, e de uma perseguição religiosa que ferira a alma profunda das gentes do campo com a precisão cirúrgica de quem opera sem anestesia e sem qualquer diagnóstico.
A Primeira República, dominada por uma elite urbana e maçónica que confundia o anticlericalismo com a civilização e a Carbonária com a filosofia das Luzes, olhava para a Igreja Católica como o último reduto do "obscurantismo" monárquico. Aqui, "obscurantismo" como uma designação cómoda com que se estigmatiza tudo aquilo que não se consegue destruir por argumento.
O Estado republicano expulsou as ordens religiosas, nacionalizou bens eclesiásticos e chegou ao requinte de proibir o toque dos sinos e as procissões sem a prévia licença administrativa: ou seja, "o" Deus do catolicismo passou a depender de uma portaria do Ministério do Interior para ser ouvido ou visto nas ruas de Portugal. A Lei da Separação da Igreja do Estado, de 20 de Abril de 1911, obra maior de Afonso Costa — esse homem que prometera extinguir o catolicismo em duas gerações com a mesma leveza com que quem promete debelar uma praga de ratos —, não foi um pacto de convivência entre o secular e o sagrado, mas um édito de submissão que, num tiro de consequências que saiu pela culatra e com estrondo histórico, transformou a perseguição à fé numa resistência política de largo alcance e de raízes profundas como as das carvalhas do Minho.
Raul Proença, com aquela lucidez melancólica dos inteligentes que chegam tarde à verdade, disse num artigo publicado em Lisboa no Verão de 1926: "O país está de tal modo cansado de liberdade que a troca por um pouco de ordem, mesmo que seja a ordem dos cemitérios.". Frase que a República devia ter mandado gravar em bronze e pendurar no frontispício da Assembleia. Caso a Assembleia, nessa hora, ainda tivesse frontispício moral em que pendurar fosse o que fosse. O descontentamento que então grassava não era apenas político nem sequer meramente económico; era profundamente existencial e pairava aquela fadiga de povo que sente que lhe roubaram, não só o pão da boca, mas também a pedra do altar e o sino da torre que lhe sustentavam a fé.
O Exército havia sido humilhado pela gestão desastrosa do Corpo Expedicionário Português na Grande Guerra; aquando entregue às lamas da Flandres como se entrega uma hipoteca que não se pretende resgatar; e, paralelamente, pela libertinagem das ruas lisboetas que mais pareciam o ensaio permanente de uma revolução que nunca mais chegava. Os militares sentiam-se o único depositário da honra nacional num país que não estava apenas faminto de pão, mas verdadeiramente sedento do sagrado que a República tentara sistematicamente drenar. Ao tentar transformar, por decreto e pelo ridículo aparato de uma legislação positivista, o camponês minhoto ou o pastor alentejano em cidadãos laicos e racionalistas, o regime apenas logrou criar uma legião de inimigos silenciosos que, entre preces e amarguras, entre os terços e as facas de mato, rezavam pelo fim da "Carbonária" com a convicção serena de quem sabe que Deus, ao contrário dos governos, não falha.
Neste tabuado de incertezas e vergonhas acumuladas, surge a figura de Manuel de Oliveira Gomes da Costa. Não como um político de salão, dessas figuras de brilhantina e diploma que então abundavam nos corredores do Parlamento como a traça nos arquivos, mas como o carismático "Marechal das Trincheiras". Um homem que cheirava a pólvora real e que constituiria o último grande momento romântico da nossa história militar: uma autêntica Cruzada de restauração nacional que tinha de grandioso tudo aquilo que a República tinha de miserável. A Marcha de Braga tinha de espontânea toda a comoção que aquela República fingira durante dezasseis anos de comédia constitucional.
Em 1926, ao partir de Braga; essa mesma Braga de S. Martinho e dos arcebispos (a cidade que Afonso Costa outrora e arrogantemente, escolhera como palco para as suas profecias sobre a extinção do catolicismo em Portugal), o General (ainda na altura) encarnou o "braço de Deus". Uma mítica expressão aos olhos de uma hierarquia eclesiástica fustigada, que via naquele movimento a única esperança para um clero remetido à semiclandestinidade e vigiado pela polícia republicana como se vigia um conspirador ou um leproso. Tal desígnio atingiria o seu apogeu e, curiosa e traiçoeiramente, também o seu fim. A glória em Portugal tem sempre a duração de uma bolha de sabão. E a 6 de Junho, com a entrada triunfal na Avenida da Liberdade, onde Gomes da Costa, rodeado por quinze mil baionetas e pelo aplauso histriónico de uma multidão sedenta de ordem como os desertos são sedentos de chuva, selava o destino de um regime que já não tinha alma para resistir e que, na opinião de muitos, há muito deixara de ter alma para governar.
A 28 de Maio de 1926, no Quartel de Infantaria 8, em Braga, o General Gomes da Costa lançou a sua proclamação ao País, proferindo a sentença que ecoaria por décadas nas paredes da história e nas consciências dos que ainda tinham consciência para ecoar: "Para um mal tão grande, só há um remédio: a força!". Palavras que a República consideraria como bárbaras e não como a cura precipitada de um doente que a medicina parlamentar recusara tratar.
Quando a coluna de Gomes da Costa atravessou as aldeias em Junho de 1926, as mulheres não atiravam apenas flores; faziam, simultaneamente, o sinal da cruz. Para o Portugal profundo; esse Portugal que os republicanos de gabinete nunca conheceram senão da janela dos comboios da época, o 28 de Maio não era apenas um golpe de Estado: era o fim de um cativeiro babilónico e a fresca madrugada depois de uma noite de dezasseis anos. Relatos daqueles tempos contam que muitos soldados traziam terços enrolados nos punhos das baionetas ou santinhos escondidos sob o bibe da farda.
Gomes da Costa via-se como "um cirurgião" que amputaria a gangrena da política; e, durante a descida para o Sul em finais de Maio de 1926, afirmaria ainda aos jornalistas, num dos acampamentos militares de estrada e com aquela franqueza directa de quem nunca aprendeu a mentir porque nunca precisou: "A nação quer um governo de homens honrados, e o exército é a própria honra da nação." Foi uma marcha sem sangue, o que é, em si mesmo, a mais eloquente das acusações à República, pois um regime que não encontra um único homem disposto a morrer por ele é um regime que já morreu por dentro, e que apenas aguarda o seu enterro oficial.
O Presidente Bernardino Machado, consciente da agonia do regime com essa lucidez tardia que é apanágio dos que perderam sem perceber quando, desabafava no Palácio de Belém a 31 de Maio de 1926: "A República está à mercê dos seus filhos mais ingratos." Frase patética na sua exactidão involuntária: os filhos ingratos eram os únicos que ainda tinham energia, fosse ela qual fosse.
A entrada do então General Gomes da Costa na Avenida da Liberdade, a 6 de Junho de 1926, constituiu o auge de um homem e, ao mesmo tempo, o fim de um tempo. Daquele tempo em que a honra ainda se confundia com o poder; um equívoco perigoso que a realpolitik trata sempre de corrigir com brutalidade cirúrgica. A política guarda horrores e traições que a bravura das trincheiras jamais pode prever e jamais pode merecer, acrescente-se. São duas linguagens distintas faladas por espécies que apenas se assemelham na aparência exterior. O General, militar de têmpera pura e honra intacta, revelou-se fatalmente ingénuo perante os maquiavelismos dos bastidores. Era um leão no campo de batalha e uma criança no campo da conspiração. E Portugal, para sua desgraça, premiava sempre os segundos.
Enquanto o, anos mais tarde condecorado a Marechal, se perdia no brilho das paradas e no calor do aplauso popular distribuido com a mesma fidelidade com que um vendedor ambulante distribui os seus guarda-chuvas só quando chove; o Directório Militar tecia, na sombra e com a paciência dos que nunca pisaram uma trincheira, a teia do seu aniquilamento político.
A 9 de Julho de 1926, consumada a infâmia com aquela eficiência que os portugueses reservam exclusivamente para as traições, Gomes da Costa foi detido no Palácio de Belém pelos próprios camaradas que ele próprio conduzira à vitória; acto que, em Portugal se apelida apenas de "política" pura e dura. Desabafou então a amargura de quem se sentia, com toda a razão, profundamente traído: "Fui eu que abri a porta, mas são os que estavam escondidos atrás dela que agora se sentam à mesa."
Assim terminou, no opróbrio e na ingratidão, a única aventura autenticamente épica que a nossa contemporaneidade produziu. O 28 de Maio foi, para Portugal, um momento revolucionário em que a História se coagulou num gesto e num homem. E ainda que esse homem tenha sido depois devorado pelos mesmos que o aclamaram resta-nos, afinal, a mais portuguesa de todas as lições morais e talvez, a mais universal que nos é servida por aqueles que, com cobardia, apunhalam nas costas.
Filipe Carvalho