"A propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa" in Dextravox
"A propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa"
No dia 5 de Maio de 2026, as instituições do regime cumpriram o calendário. Entre vinhos de honra e discursos ocos, celebrou-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Mas, enquanto a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, fundada em 17 de Julho de 1996) celebra o português como um "activo diplomático" e "económico" em reuniões de alto nível, ignora-se, em paralelo, a degradação da língua (numa "mitralização" ou "brasileirismo de massas") que ocorre na base, na rua e entre as juventudes que, em teoria, deveriam ser o futuro dessa mesma comunidade. O que ouvimos hoje, de forma geral e num Portugal transversal, não é a evolução orgânica de um idioma; mas a sua necrose. O "falar à mitra" — esse híbrido de crioulos, slang digital (enquanto gíria paralela e extremamente volátil que molda a forma como a juventude comunica e, por extensão, como pensa) e fonética mastigada — tornou-se no novo esperanto de uma nação que desistiu de si mesma.
Esta desestruturação não ocorre por mero acaso; ela é legitimada por uma intelligentsia de esquerda que vê na norma culta uma barreira de classes. A Nova Esquerda portuguesa, influenciada por autores como o linguista brasileiro Marcos Bagno, cujas teses sobre o "Preconceito Linguístico" inundaram as faculdades de letras nacionais, defende que a exigência da norma padrão é uma forma de exclusão social. Desta forma, a correcção gramatical é denunciada como um "atavismo colonial" (atraso evolutivo), e o rigor linguístico é substituído pela celebração da gíria periférica, elevada ao estatuto de vernáculo da resistência. Sectores do Bloco de Esquerda e da ala progressista do PS validam esta deriva, argumentando que a escola não deve "higienizar" a fala dos alunos, mas sim aceitar a fragmentação do idioma como prova de uma suposta vitalidade democrática.
No seu livro Preconceito Linguístico: o que é, como se faz, Marcos Bagno escreve textualmente frases que fundamentam a ideia de que a gramática é uma arma de classes:
"A gramática tradicional é, sim, um instrumento de poder e de exclusão."; "O ensino do 'português correcto' nada mais é do que uma tentativa de imposição de um padrão estético e ideológico de uma classe dominante sobre as outras."
De mãos dadas com esta leucoplasia linguística, o fenómeno mais patológico é, contudo, a aculturação invertida. O jovem oicofóbico (Roger Scruton classificou como 'Oicofobia' a aversão patológica à própria herança), órfão de referentes heróicos após décadas de "limpeza histórica" operada pelas Esquerdas nos manuais, procura no gueto a sua identidade de substituição.
Em England: An Elegy (2000) e outros vários ensaios sobre a cultura ocidental, Roger Scruton define a patologia que pode explicar porque razão os jovens portugueses rejeitam a sua língua:
"O oicofóbico sente a necessidade de denegrir os costumes, a cultura e as instituições que se identificam como 'nossas'. [...] Para o oicofóbico, qualquer expressão de herança nacional é vista como uma agressão ao 'outro', preferindo sempre o estrangeiro ou o marginal àquilo que lhe pertence."
Sem o "Navegador" ou o "Cavaleiro", o adolescente abraça o "Dread" como único arquétipo de virilidade. Este cenário é blindado por uma conivência parental sem precedentes. Pais amedrontados pela autoridade ou seduzidos pelo desejo de serem "fixes", validam a estupidificação dos próprios filhos. O ecrã do smartphone substituiu o livro; e com ele, o algoritmo brasileiro de massas, carregado de toxicidade "lacradora", substituiu a conversa à mesa. Esta demissão doméstica é o golpe de misericórdia que António Sardinha, no seu Ao Princípio Era o Verbo (1924) definiu como a "armadura da nossa alma": "A Língua é o corpo da Pátria", escreveu ele, avisando que "a desordem do Verbo é o prelúdio da desordem do Estado".
A língua portuguesa está hoje presa numa pinça ideológica e económica de efeitos devastadores. De um lado, opera o Utilitarismo Liberal, que despromove o idioma de pátria espiritual a um mero commodity (mercadoria) transaccional. Para esta visão de mercado, a gramática é uma barreira comercial desnecessária. E se o calão do gueto vende discos, gera tráfego nas redes sociais e azeita as engrenagens da economia da atenção, então, o liberalismo de massas não só consente, como aplaude esta degradação.
Do outro lado, este vazio cultural é preenchido pelo Materialismo Marxista e pela sua derivação woke. Importámos das universidades americanas o veneno que a nossa Nova Esquerda agora destila com fervor: a tese de que a norma culta é um instrumento de "supremacia" e "elitismo burguês". Sob este prisma, a correcção linguística deixa de ser um acto pedagógico para ser denunciada como uma "violência colonial".
"É necessário descolonizar a língua. A imposição de uma norma culta 'eurocêntrica' sobre as variantes populares e periféricas é uma forma de 'epistemicídio', que nega a validade das experiências de quem habita as margens."
(Argumento central nas crónicas e ensaios de Boaventura de Sousa Santos sobre educação e justiça social).
Fernando Pessoa proclamou que a sua pátria era a língua portuguesa. Em 2026, essa pátria é um arquipélago de guetos linguísticos validado pelo triunfo do "bárbaro de cartola" (aquele "doutor pedante" que Hipólito Raposo denunciava nos seus ensaios na revista Nação Portuguesa em 1922). Portugal aprendeu a grunhir para ser "progressista", enquanto as elites aplaudiam a diversidade da sua própria ruína.
Em obras seminais como Dois Direitos (1923) e nos seus combativos artigos para a revista A Monarquia (fundada em 1916), Hipólito Raposo explorou a tese de que a civilização não é um estado natural, mas um esforço constante de disciplina e vontade. Para este ideólogo do Integralismo Lusitano, "a civilização é a vitória da ordem sobre o instinto; a barbárie é o triunfo do número e da força bruta sobre a inteligência e a tradição".
No passado dia 5, enquanto se celebrava oficialmente a Língua, o que se ouviu não foi o vigor da inteligência ou o peso da tradição, mas sim o seu epitáfio ideológico, redigido sob a bênção de um regime que parece confirmar o triunfo da barbárie e do "número" sobre a herança espiritual e cultural da nação.
Filipe Carvalho