“Me ne frego”: estética, vontade e destino na figura de Gabriele D’Annunzio in Dextravox

“Me ne frego”: estética, vontade e destino na figura de Gabriele D’Annunzio

A expressão italiana "Me ne frego", tantas vezes traduzida como um brusco "estou-me a lixar" ou "não me importa", transcende o mero gesto de indiferença para se inscrever, no contexto da Europa do início do século XX, como um símbolo de vontade, de desafio e de afirmação estética da existência. Na sua apropriação por Gabriele D’Annunzio (1863–1938), esta fórmula adquire uma densidade singular, onde se entrelaçam literatura, política e uma concepção quase religiosa da acção.

A trajectória de D’Annunzio não pode ser dissociada do clima espiritual do seu tempo. Nascido em Pescara, em 1863, cedo revelou inclinação para as letras, publicando, ainda adolescente, a colectânea poética Primo vere (1879). A sua formação inscreve-se na corrente decadentista, profundamente marcada pela influência de autores como Baudelaire e Nietzsche, este último determinante na construção do ideal do "super-homem". Não tanto no sentido filosófico rigoroso, mas antes como figura estética e existencial.

No romance Il piacere (1889), D’Annunzio delineia já o perfil do esteta absoluto, Andrea Sperelli, cuja vida se organiza em torno do culto da beleza e do requinte sensorial. Escreve o autor: "Bisogna fare della propria vita, come si fa d’un’opera d’arte" ("É preciso fazer da própria vida, como se faz uma obra de arte"). Esta máxima tornar-se-á a pedra angular da sua própria existência, num processo deliberado de estetização da vida que não se limita à ficção.

É, porém, na viragem para o século XX que a figura de D’Annunzio, após a sua participação na Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1915 para a Itália, marca um ponto de inflexão. O escritor, já então consagrado, alista-se voluntariamente, participando em acções audaciosas, como o célebre voo sobre Viena em 9 de Agosto de 1918, durante o qual lançou panfletos propagandísticos sobre a cidade inimiga. Aqui, a palavra poética converteu-se numa forma de combate, e o gesto literário fundiu-se com a acção militar.

É neste contexto que a expressão "Me ne frego" ganha relevo. Inicialmente utilizada por unidades de assalto italianas, os Arditi, como sinal de desprezo pela morte, é adoptada e amplificada por D’Annunzio como lema existencial. Não se trata apenas de indiferença, mas de uma afirmação de soberania individual face ao destino. No fundo, um acto de vontade pura, onde o sujeito se eleva acima do medo e da moral convencional.

Tal atitude encontra a sua expressão mais emblemática na ocupação de Fiume (actual Rijeka), iniciada a 12 de Setembro de 1919. À frente de um grupo de voluntários, D’Annunzio toma a cidade e proclama a Regência Italiana do Carnaro, instaurando um regime efémero mas intensamente simbólico. Durante cerca de quinze meses, até Dezembro de 1920, Fiume torna-se um laboratório político e estético, onde se experimentam formas de governo, rituais cívicos e uma retórica inflamada que viria a influenciar profundamente os movimentos ideológicos subsequentes.

A Carta del Carnaro, elaborada em 1920 com a colaboração de Alceste De Ambris, constitui um documento singular, onde se combinam elementos corporativistas, sindicalistas e uma concepção quase litúrgica da política. Aí pode ler-se: "La musica è un istituto religioso e sociale" — uma afirmação reveladora da fusão entre a arte e a vida pública, característica central do pensamento de D’Annunzio.

Contudo, importa sublinhar que a sua actividade literária não se esgota na propaganda ou na acção política. Ao longo da sua vida, produziu uma vasta obra que inclui poesia, teatro e prosa narrativa. Destacam-se, entre outros, Le vergini delle rocce (1895), onde se vislumbra uma utopia aristocrática e espiritual, e Alcyone (1903), uma colectânea poética que celebra a natureza e o corpo com uma musicalidade ímpar.

A linguagem de D’Annunzio é rica, sensorial e  muitas vezes excessiva. Uma verdadeira "orgia verbal", como alguns críticos (Benedetto Croce, Mario Praz e Luiggi Baldacci) a designaram. Mas é precisamente nesse excesso que reside a sua força; na tentativa de apreender o mundo não pela via da razão, mas pela intensidade da experiência estética.

A apropriação posterior de "Me ne frego" pelo regime fascista italiano, sobretudo a partir da década de 1920, confere à expressão uma carga ideológica que não pode ser ignorada. Ainda que D’Annunzio nunca tenha aderido formalmente ao fascismo, a sua influência sobre a estética e a liturgia política desse movimento é inegável. A teatralização do poder, o uso de símbolos, a exaltação da vontade; tudo isso encontra em Fiume um antecedente directo.

Todavia, reduzir D’Annunzio a um mero precursor do fascismo seria empobrecer a complexidade da sua figura. Ele foi, antes de mais, um poeta que viveu a sua própria vida como uma obra de arte, com todas as contradições que tal desafio possa implicar. A sua frase "Me ne frego" deve ser compreendida, não apenas como um grito político, mas como a expressão de uma recusa da passividade, um apelo à acção e à criação de si mesmo.

Num tempo como o nosso, marcado por incertezas e por uma certa apatia espiritual, a figura de D’Annunzio surge como um desafio incómodo. Até que ponto estamos dispostos a assumir a responsabilidade estética e ética da nossa própria existência?

Filipe Carvalho 

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