"Francisco Rolão Preto, o fascista que Soares condecorou" in Dextravox
A figura de Francisco Rolão Preto permanece, ainda hoje, como uma das mais desconcertantes e mal compreendidas da história política portuguesa do século XX. Não por falta de documentação ou testemunho, mas porque a sua trajectória resiste às simplificações ideológicas que frequentemente estruturam a memória histórica. Entre o impulso revolucionário e a fidelidade à tradição, entre a tentação fascista e a posterior dissidência anti-salazarista, Rolão Preto encarna um drama ainda mais vasto: o da própria identidade das direitas portuguesas na modernidade.
Para compreender esta figura, é indispensável situá-la no quadro da crise do liberalismo que marcou a Europa de entre-guerras. A derrocada das instituições parlamentares, a instabilidade social e a ameaça do bolchevismo criaram o terreno fértil para quaisquer experiências políticas que procurassem ultrapassar a dicotomia entre o liberalismo e o socialismo. Neste contexto, o nacional-sindicalismo português surgiu como uma tentativa de síntese entre a autoridade, sentido de comunidade e a justiça social.
Inspirado, sem dúvida, pelo exemplo de Benito Mussolini, o movimento liderado por Rolão Preto não deve, contudo, ser reduzido a uma mera imitação periférica. Ele procurava enraizar-se na tradição portuguesa, nomeadamente no Integralismo Lusitano, herdando deste uma visão orgânica da sociedade anti-individualista e anti-parlamentar. A Nação não era, aqui, uma soma de indivíduos, mas uma realidade histórica e espiritual, dotada de fins próprios; e, neste sentido, o nacional-sindicalismo apresentava-se como uma tentativa de regeneração nacional, fundada numa mobilização ética e política das elites e das massas.
E é precisamente nesta dimensão mobilizadora que se estabelece a ruptura com António de Oliveira Salazar. Se o Estado Novo partilhava com o nacional-sindicalismo a rejeição do liberalismo e do socialismo, divergiam, todavia, quanto ao método e ao espírito. Salazar representava a prudência e a contenção. No fundo, quase como a recusa da política como uma mobilização permanente. Já Rolão Preto, pelo contrário, via na acção política um instrumento de transformação profunda, quase messiânica, da sociedade portuguesa.
A proibição do movimento nacional-sindicalista, em 1934, rejeitou, por parte do Estado Novo, uma força que, embora ideologicamente próxima, em certos aspectos, do salazarismo; escapava ao seu controlo e introduzia um elemento de imprevisibilidade no edifício do regime. Foi esta ambiguidade que colocou Francisco Rolão Preto em rota de colisão com António de Oliveira Salazar. E Salazar compreendeu, com uma lucidez quase trágica, que a modernidade política continha em si um princípio de desmesura estética. E se, por um lado, Rolão Preto representou a tentação da forma através do movimento; Salazar encarnou a tentativa de preservá-la através da sua imobilização.
Após a proibição do Movimento Nacional-Sindicalista em 1934, por decisão do regime de António de Oliveira Salazar, Rolão Preto foi progressivamente marginalizado e, pouco depois, compelido ao exílio. Este afastamento não foi apenas geográfico; mas também simbólico e, ao ser expulso do espaço nacional, viu-se privado do horizonte concreto onde a sua visão política pretendia realizar-se. O exílio, neste sentido, funcionou como uma espécie de "prova negativa" que revelou os limites da sua própria construção ideológica.
Após o seu regresso a Portugal, e embora nunca se tenha convertido plenamente ao liberalismo democrático, distanciou-se do radicalismo mobilizador da juventude. Tornou-se, sobretudo, um opositor do Estado Novo. Não a partir de uma posição externa ao campo das direitas, mas com a legitimidade particular de quem havia, em tempos, procurado uma alternativa autoritária ao regime.
É neste ponto que se torna inteligível ( ainda que não isenta de controvérsia ) a decisão de Mário Soares de o condecorar, a título póstumo, com a Ordem da Liberdade.
A condecoração de Francisco Rolão Preto por Mário Soares constituiu um desses momentos de rara densidade histórica, onde a geometria variável da política portuguesa se manifestou em todo o seu esplendor e paradoxo.
Há na esquerda socialista, e muito em particular na linhagem política inaugurada por Mário Soares, uma superior capacidade de transfiguração que escapa, por sistema, à direita mais empedernida e doutrinária. Enquanto a direita se perde, amiúde, em purismos éticos ou em complexos de culpa históricos, o socialismo de matriz soaresca sempre soube que a política não é o lugar onde mora a santidade, mas o real teatro da sobrevivência e da hegemonia. A condecoração de Francisco Rolão Preto, em 1994, não foi um lapso de memória ou um mero gesto de cortesia institucional; foi, sim, o expoente máximo de uma estratégia de canibalização do passado com "luva branca".
Ao colocar a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique ao peito do antigo Chefe Nacional-Sindicalista, Soares operou um prodígio de alquimia política: transformou o «fascista» de ontem — aquele que os manuais da esquerda costumavam abominar — num «resistente» de hoje. E, com este gesto, o socialismo não só desarmou os herdeiros de Rolão Preto, integrando-os na moldura da democracia liberal, como proclamou a sua própria autoridade moral para decidir quem, na História, merece a redenção e quem deve permanecer no purgatório ideológico.
Ao condecorar o homem que personificara o mimetismo fascista nos anos trinta, Soares não estava a reabilitar o ideário dos Camisas Azuis; estava, antes, a demonstrar que a República abrileira era tão poderosa que podia dar-se ao luxo de ser magnânima com os seus antigos carrascos, desde que estes tivessem tido, na óptica socialista, a clarividência de odiar Salazar.
É este o grande triunfo táctico do socialismo português: a capacidade de cavalgar as contradições, unindo no mesmo panteão o maçon e o integralista, ou juntando o general republicano e o místico da monarquia orgânica. No fim percebemos que, para a esquerda, a História não é um conjunto de factos imutáveis, mas uma matéria plástica que se molda conforme a necessidade de legitimação do presente. Condecorar um fascista não é, pois, uma traição aos princípios; é a afirmação soberana de que só o Estado socialista detém a chave para fechar, ou reabrir, as feridas de uma Nação.
Filipe Carvalho