"A hipocrisia dos símbolos"
"A hipocrisia dos símbolos"
Poucas épocas da História se mostram tão férteis em contradições morais como a delicada dicotomia nazismo versus comunismo. É curioso, observar a facilidade com que se empunha o estandarte da virtude quando se trata de condenar a simbologia nazi e a complacência cúmplice que se instala quando os mesmos que clamam por censura, ostentam orgulhosamente a foice e o martelo.
Em 2009, o Parlamento Europeu aprovou a Resolução sobre a Consciência Europeia e o Totalitarismo, um documento que reconhece, com clareza, que tanto o nazismo como o comunismo foram regimes totalitários responsáveis por crimes de massa, pela destruição da liberdade e pela negação da dignidade humana. Nessa mesma resolução se proclama o 23 de Agosto — data do pacto Molotov-Ribbentrop — como o Dia Europeu da memória das Vítimas do Estalinismo e do Nazismo. Uma data expressa apenas em palavras porque, enquanto o nazismo continua a ser punido até na sua iconografia, o comunismo persiste, imune, nas camisolas, nas bandeiras e nos slogans de rua.
A suástica, esse emblema infame do horror, não se pode exibir, reproduzir, ou sequer usar em contexto neutro, sem que chovam acusações e proibições. Mas, de forma pouco coerente, a iconografia comunista, responsável, ela também, por montanhas de cadáveres e nações arrasadas, é tratada como um adereço folclórico, numa nostalgia romântica de juventudes revolucionárias e como um símbolo de "luta do povo".
Convenientemente esquecem-se os milhões de mortos, as purgas, as deportações, os gulags, os muros e os campos de fome que se ergueram sob a mesma bandeira vermelha.
O nazismo, por ser o inimigo vencido, tornou-se seguro de odiar; o comunismo, por ter deixado descendência política ainda activa, é tolerado e, em alguns casos, até celebrado. E assim, nas montras do comércio global, vende-se merchandising com o rosto de Che Guevara como um emblema de rebeldia juvenil e imprime-se, inconsequentemente, a foice e o martelo em canecas e bonés. É o mercado, com a sua suprema ironia liberal, a lucrar com revoluções em formato vintage e ditaduras em versões souvenir.
Países como a Alemanha, a Áustria ou a França criminalizam qualquer uso de símbolos nazis, mas não hesitam em tolerar, em nome da "liberdade de expressão", a exibição da foice e do martelo. Apenas as nações que sofreram directamente o jugo soviético — Lituânia, Letónia, Estónia, Hungria, Ucrânia — ousaram equiparar legalmente os dois totalitarismos. E foi precisamente por isso que Bruxelas as olhou com desconfiança, como quem ousa quebrar um tabu que o Ocidente prefere manter intacto.
Já antes, em 2008, a Declaração de Praga sobre a Consciência Europeia e o Comunismo, assinada por dissidentes como Václav Havel, clamava por justiça histórica e por um reconhecimento equitativo das vítimas dos dois regimes. Apelava à Europa para que deixasse de tratar o comunismo como um "erro bem-intencionado" e o reconhecesse como um sistema de terror planificado. Mas, uma vez mais, a declaração foi recebida com cortesia diplomática e sepultada na indiferença política.
A História, amputada da sua honestidade, pode ser considerada como propaganda; e é perigoso e incoerente viver entre a suástica proibida e a foice tolerada. São dois rostos distintos, separados apenas pela conveniência dos que fazem da moral um tendencioso espectáculo.
Estuda-se o nazismo como lição de terror mas aborda-se o comunismo com uma indulgência quase catequética, como sendo um ideal traído pela realidade e não, ele próprio, uma realidade de opressão. Há manuais que suavizam os campos de trabalho forçado e que falam das purgas de Estaline como "excessos de um processo revolucionário".
Nada disto seria grave se não tivesse consequências práticas. Mas tem; e é por isso que se pode ver jovens, nas ruas da Europa, trajando camisolas com o rosto de ditadores comunistas sem a menor consciência do que simbolizam. A diferença não está na sensibilidade, mas na educação; ou melhor, na deformação deliberada da memória histórica.
A cumplicidade dos media e da indústria cultural é, talvez, o capítulo mais perverso desta história. Ergueu-se, cinematograficamente, o nazismo como o vilão perfeito, reconhecível e universal. Mas quantos filmes de grande produção ousaram retratar com igual vigor o terror vermelho?
No fim, tudo se resume a uma questão de coragem intelectual. A coragem de olhar a História sem filtros partidários, sem sentimentalismos ideológicos e sem o conforto das narrativas tendenciosas e selectivas.
Filipe Carvalho