Mensagens

"Pensar ofende?" in "Folha Nacional"

Imagem
"Pensar ofende?" ​A paisagem mediática contemporânea na Europa assiste a uma transformação preocupante, onde a censura não se manifesta apenas pela interdição directa, mas antes por uma mais subtil, mas implacável, exclusão e difamação sistemáticas. O foco deste novo "cordão sanitário" recai, particularmente, sobre os movimentos e pensadores identitários, os nacionalistas e, sobretudo, sobre a sua vertente de acção cultural e ideológica: a metapolítica. ​Os identitários, que advogam a preservação da identidade cultural, histórica e étnica dos povos europeus, e os nacionalistas, que pugnam pela soberania e pelos interesses da Nação acima de tudo, encontram-se hoje sob um assédio constante nos meios de comunicação em massa e para as massas. O que lhes é rejeitado não é apenas a sua acção política formal, mas sim a própria ideia que defendem. A sua linguagem, os seus símbolos e as suas propostas são frequentemente rotulados com pejorativos extre...

"Quem vê caras não vê burqas "

Imagem
Quem vê caras não vê burqas A recente aprovação na Assembleia da República de uma lei que proíbe o uso de vestimentas que ocultem integralmente o rosto, nomeadamente e em particular, o véu integral islâmico (burqa e niqab) , merece uma reflexão que oscila entre uma justificação relativamente compreensível e uma discussão algo mesquinha e "pequenina".  A lei pode ser compreensível e legítima, na medida em que aborda temas tão pertinentes como segurança e reconhecimento. Pese embora, essa mesma abordagem ter parecido desproporcional face à forma como se conduziu o debate; sempre muito centrado no "tecido sagrado" em vez de nos efeitos ou causas mais profundas das práticas de cobertura ou da condição das mulheres em contextos diversos. A lei pareceu focar-se mais no "que veste o rosto completamente" do que num debate profundo sobre integração, desigualdade, multiculturalismo, ou situações reais de coacção. Ou seja, o debate ficou mais superficial...

"Angola é que são elas"

Imagem
"Angola é que são elas" ​O que hoje se vive em Portugal não é apenas uma crise política ou económica; é um colapso civilizacional imposto por uma classe dirigente traidora e complexada. Livremo-nos do espartilho do politicamente correcto e exponhamos a conexão viciosa entre três flagelos contemporâneos: a subserviência histórica, a frivolidade política e a falência dos serviços essenciais. ​A candidatura bizarra de Manuel João Vieira à Presidência da República — o "candidato dos Ferraris e do vinho canalizado" — não é uma anedota, é o retrato cínico do nosso Estado. Vieira é a encarnação do niilismo político e a prova de que a República transformou a sua função mais solene num palco de pantomima. ​O sistema dá-lhe palco porque ouvi-lo prometer o que é impossível é menos perigoso do que o "populismo" de intervenção que denuncia a traição das elites. Ao ridicularizar o patriotismo e o debate sério, Vieira serve os interesses de quem quer manter o...

"Liberalismo: liberdade ou maldade?"

Imagem
"Liberalismo: liberdade ou maldade?" O  Homo Sapiens , este bípede erigido sob a insustentável leveza do Ser, vive acorrentado à miragem filosófica que lhe arroga a dignidade e a miséria da escolha. É uma concessão divina, bradam os teólogos, desde Agostinho de Hipona, para quem o mal é a privação do bem e fruto do mau uso da vontade. Uma dádiva, dizem, que nos afasta da pura mecanicidade da pedra e nos eleva ao patamar da responsabilidade moral. Mas que arquitectura perversa é esta, que nos dota de liberdade para, invariavelmente, cairmos na abjecção? A maldade não é uma falha no  software  da Criação; é a sua característica mais estável e, paradoxalmente, a mais definidora da nossa pretendida "liberdade". ​Recuemos ao Gênesis. A interdição, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, não era um teste de obediência cega, mas a inauguração da ambiguidade. Antes, havia apenas a inocência edénica; depois, a consciência, o saber que o caminho se bifurca, que ...

"A hipocrisia dos símbolos"

Imagem
"A hipocrisia dos símbolos" Poucas épocas da História se mostram tão férteis em contradições morais como a delicada dicotomia nazismo versus  comunismo. É curioso, observar a facilidade com que se empunha o estandarte da virtude quando se trata de condenar a simbologia nazi e a complacência cúmplice que se instala quando os mesmos que clamam por censura, ostentam orgulhosamente a foice e o martelo. Em 2009, o Parlamento Europeu aprovou a Resolução sobre a Consciência Europeia e o Totalitarismo, um documento que reconhece, com clareza, que tanto o nazismo como o comunismo foram regimes totalitários responsáveis por crimes de massa, pela destruição da liberdade e pela negação da dignidade humana. Nessa mesma resolução se proclama o 23 de Agosto — data do pacto Molotov-Ribbentrop — como o Dia Europeu da memória das Vítimas do Estalinismo e do Nazismo. Uma data expressa apenas em palavras porque, enquanto o nazismo continua a ser punido até na sua iconografia, o comun...

​Do idealismo inconsequente à mobilização da conspiração

Imagem
"​​Do idealismo inconsequente à mobilização da conspiração" A Europa, enquanto ideia e civilização, encontra-se hoje num interregno melancólico. Não se trata meramente de uma crise económica ou geopolítica, mas de uma tragédia de carácter metafísico. ​O século XX legou-nos contrastes ideológicos tão abissais que a verdade histórica se dissolveu na retórica do medo.  De um lado, encontramos Richard von Coudenhove-Kalergi, o aristocrata cosmopolita cujo projecto Pan-Europa era, no período entre-guerras, um grito idealista contra o nacionalismo homicida. As suas reflexões sobre o "homem do futuro" ser de "raça mista" eram, então, um prognóstico filosófico, elitista na sua génese, mas destituído de uma ambição imediata de engenharia social.  ​O projecto de unificação, embora nascido da mais nobre das vontades, sucumbiu à sua própria inconsistência estrutural. O que prometeu ser uma federação política de sujeitos tornou-se num complexo de regulament...

"Yukio Mishima e o suicídio da Europa "

Imagem
"Yukio Mishima e o suicídio da Europa" A 25 de Novembro de 1970, Yukio Mishima, um dos mais proeminentes e controversos escritores japoneses, pôs fim à sua vida num meticuloso e brutal  seppuku (harakiri  quando menos formal ) , o suicídio ritual dos samurais, após uma tentativa frustrada de golpe de Estado no quartel-general das Forças de Autodefesa do Japão.  Este acto, simultaneamente ideológico, estético e visceral, ergue-se como um grito de revolta contra a decadência que Mishima via no Japão do pós-guerra. Foi um protesto contra a troca da honra e do espírito pela mera prosperidade económica, consagrando a vitória da matéria sobre o que é essencial. É neste ponto que o seu gesto final oferece uma perspectiva trágica para a análise do definhar da Europa contemporânea. O suicídio de Mishima não foi um acto de desespero, mas o ponto final rigoroso de uma filosofia. Ele via na morte a única síntese possível entre a arte (a palavra, o sonho) e a acção (o corp...