VIRTUOSAMENTE (em solidariedade) - "AS CRÓNICAS PROIBIDAS"

ÍNDICE 

INTRODUÇÃO 
1- "Fantasma a preto e branco"
2- "Europa meretriz"
3- "Jornalixo"
4- "Eu tenho um sonho: uma marcha negra e muda"​
5- "Avante carneirada, avante!"
6- "Arte, vandalismo ou política?"
7- "Garantir um futuro de esperança para as próximas gerações"

8- "Migrações em massa" 
9- "Corporativismo, o Kaizen europeu"
10- "Europa: o monstro retalhado"
CONCLUSÃO 



Introdução

Virtuosamente - "Virtus: virtude, carácter (baseado em valores)"

O blogue Virtuosamente nasce da recusa do silêncio confortável. Não é um blogue de opinião ligeira, nem um exercício de escrita ornamental; é um espaço de fricção entre identidade, história e consciência. Aqui, escrever é um acto de posicionamento — não no sentido partidário do termo, mas no gesto mais profundo de dizer: "eu estou aqui, neste tempo, com esta herança, e não abdico de pensar a partir dela."
Estas crónicas emergem de um reconhecimento atravessado por camadas — nacional, europeia, histórica, cultural — e que recusa aceitar leituras simplificadoras do mundo. 

​Este livro (completamente gratuito) foi estruturado de forma apressada, reunindo crónicas que já ganharam vida noutros tempos (e que são a justificativa do meu cancelamento na conhecida plataforma "Observador" e no semanário " O Diabo"), mas que agora encontram aqui um novo fôlego por uma razão maior. Embora surja com um inevitável sentimento de impotência perante a dimensão da tragédia, esta obra serve como um apelo directo à solidariedade.

Ajudar à distância de um MBWAY.


Crónica 1 - "​Fantasma a preto e branco"

Esta primeira crónica nasce de uma exaustão contida. Não é, de forma alguma, raiva imediata, nem indignação explosiva, mas um cansaço lúcido perante narrativas herdadas que se recusam a morrer. Escrevo a partir de um lugar desconfortável: o de quem sente a necessidade de defender a sua posição não por actos cometidos, mas por uma identidade que lhe foi atribuída à nascença.
Há aqui um impulso de clarificação — quase um gesto de auto-defesa intelectual. A escrita surge como uma resposta a um ambiente onde a culpa é colectiva, abstracta e inescapável, e onde o indivíduo concreto é dissolvido em símbolos históricos que não escolheu. É neste estado de espírito, entre a necessidade de dizer "não" e o esforço de compreender o outro lado da ferida, que surge Fantasma a preto e branco.

A complexa teia de interações entre Portugal e o continente Africano está perpetuamente hipotecada pelo fantasma do colonialismo. Quando se fala de preconceito, é habitual o foco residir no racismo estrutural que se abate sobre as comunidades africanas na Europa. No entanto, a lâmina da hostilidade e do estereótipo opera também em sentido inverso, manifestando-se como um ressentimento dirigido a portugueses (numa abstracta generalidade).

O cerne do preconceito dirigido a portugueses não reside na sua etnia em si, mas na narrativa histórica do âmbito do colono.
​Mesmo o jovem português nascido em 1990, com escasso conhecimento das PME portuguesas do Ultramar, é forçado a herdar o fardo de quatro séculos de opressão. 
É uma leitura redutora, sim, mas poderosamente simbólica, e é a partir desta lente que o preconceito se articula.

​O preconceito anti-português em África existe como uma consequência dolorosa e, por vezes, inevitável, de uma história mal digerida.
​O discurso mordaz reside na observação de que ambos os lados se agarram à sua posição de "vítima" (o português, vítima do ressentimento; o africano, vítima da história); o africano tem de conceder que o indivíduo contemporâneo não pode ser eternamente condenado pelos pecados dos seus antepassados, até porque este último, não assume a posição esclavagista e opressora da qual ainda é rotulado.

​A revolta e o ódio não nascem do vazio; são frequentemente uma resposta a uma percepção de injustiça sistémica. Esta suposta injustiça prospera porque o conceito de Racismo Averso permite que as decisões sejam enviesadas sem que o decisor se sinta culpado ou racista.
​O Racismo Averso (ou Aversivo) é uma teoria da psicologia social que descreve o comportamento de indivíduos que, conscientemente, mantêm valores igualitários e acreditam ser isentos de preconceito, mas que, inconscientemente, albergam sentimentos negativos ou desconforto em relação a grupos minoritários racializados.

​É inegável que conceitos académicos como o Racismo Averso, o Privilégio Branco ou a Interseccionalidade foram largamente adoptados e popularizados por activistas e sectores da esquerda woke, tornando-se ferramentas centrais "arremessadas" na sua retórica de confronto.

​O Racismo Averso, que deveria ser um conceito sofisticado para análise do inconsciente, é politicamente reduzido à simplória mensagem de que: "Se és branco, és racista (ainda que inconscientemente), e a esta condição não podes escapar." Isto inverte o princípio da presunção de inocência. O branco é colocado numa posição de culpa prévia, onde o facto de ser branco lhe confere a suspeita de preconceito, não importando a sua intenção ou história pessoais.

Ao utilizar o Racismo Averso, as esquerdas woke podem alegar que qualquer discordância ou crítica vinda de um indivíduo branco tem um "vício de origem"; ou seja, é uma manifestação do seu preconceito inconsciente.

​O objetivo de combater o racismo deveria ser o de unir a sociedade na defesa da existência de diferentes raças e na honrosa preservação das mesmas.
​O desafio aqui é desmontar ou, mais precisamente, confrontar, a teoria de que não é que as pessoas sejam "beneficiadas por serem não-brancas" (o que a teoria do Racismo Estrutural não afirma), mas sim a ideia de o privilégio branco ser universal, tangível e sentido por todos os brancos; e que o "estatuto de branco" não garante, "per se", sucesso ou imunidade ao sofrimento.

A teoria do privilégio branco não nega a sua luta; antes afirma que, nas mesmas condições socioeconómicas, a sua cor de pele pode tornar-se num obstáculo adicional, um "peso extra". 

O indivíduo branco português que cresceu na pobreza, em bairros desfavorecidos, sem capital social ou acesso a uma educação de topo, não sente esse "tal" privilégio. A sua cor não lhe pagou as propinas, não lhe deu o emprego numa multinacional, nem o protegeu do desemprego ou da precariedade.
O seu insucesso ou dificuldade é primariamente determinado pela classe social.

A teoria falaciosa, política e tendenciosa aqui, será de que o privilégio é, sobretudo, socioeconómico, e que a raça só se torna num factor determinante quando se é não-branco (racismo sistémico) ou quando se é branco e de uma classe social já privilegiada; isto é, abastada.

Filipe Carvalho 

Se a primeira crónica enfrenta o peso do passado colonial como um fantasma projectado sobre o indivíduo contemporâneo, a segunda desloca o olhar para um corpo maior: a própria Europa. O ressentimento histórico que atravessa Fantasma a preto e branco amplia-se, em Europa meretriz, para uma crítica civilizacional. Já não se trata apenas de como o passado é usado contra o indivíduo, mas de como uma civilização inteira abdica de si mesma para sobreviver no presente.
O fio comum é a identidade sob ataque — primeiro, a identidade pessoal e nacional; depois, a identidade europeia enquanto matriz cultural e espiritual. Em ambas, há a recusa da culpa automática e da auto-flagelação como projecto político. O que muda é a escala do olhar: do sujeito acusado, passa-se à mãe civilizacional que se vende e ensina os filhos a envergonharem-se dela.
Crónica 2 "Europa meretriz"

Europa meretriz nasce de um estado de espírito marcado pela sensação de traição cultural: a ideia de que a Europa não foi apenas conquistada ou pressionada, mas que consentiu a sua própria diluição. A escrita assume uma forma quase alegórica porque a realidade já não se deixa descrever em linguagem técnica — exige imagem, corpo e metáforas grotescas.
Não é um grito de ódio, mas um lamento duro, escrito por alguém que ainda ama aquilo que critica. E é precisamente esse amor ferido que dá densidade à crónica.

​À esquina dos séculos, onde o Mediterrâneo lambe as feridas de um passado glorioso, lá está Ela. Já não é a princesa fenícia raptada pelo touro divino, nem a virgem de mármore que inspirou filósofos e navegadores.
Hoje, a Europa apresenta-se como uma meretriz cansada, sentada sob o néon intermitente de uma civilização que esqueceu o próprio nome.

​Veste-se de seda puída, num retalho de bandeiras e tratados que mal escondem a nudez de uma alma vazia. Adereça brincos de colunas dóricas e colares de ogivas góticas, agora meros objectos de adorno para deleite de turistas que pagam para lhe tocar na pele fria e olhar o decote. A sua identidade tornou-se numa mercadoria e a Europa já não se oferece por desejo, mas por hábito, vendendo o seu "eu" ao melhor licitante — ora ao capital sem rosto, ora ao niilismo que a consome.

 A Europa, na sua ânsia de ser tudo para todos, acabou por não ser ninguém para si mesma. Ao mercantilizar a sua História e ao transformar a sua Ética num catálogo de conveniências, entregou-se a uma "prostituição existencial". Cada cliente que a habita retira-lhe um pedaço de memória em troca de uma segurança efémera e de um conforto anestesiante.

A Velha Senhora vive num bordel de luxo chamado "Globalização", onde as paredes são feitas de ecrãs e o silêncio da reflexão foi substituído pelo ruído das transacções. Uma mãe que renegou os filhos para se tornar a amante dos seus próprios carrascos.

A Europa é, dramática e lamentavelmente, uma velha cortesã que, tendo perdido a fé nos seus deuses, passou a adorar as moedas que lhe deixam em cima da mesa de cabeceira, sem perceber que o ouro não compra a imortalidade que outrora possuiu.

​As actuais instituições funcionam como uma camada de cosmética pesada que tenta esconder o rosto cansado da soberania europeia. Directivas, regulamentos e protocolos são a maquilhagem e o pó de arroz que cobrem as rugas de uma união que já não se reconhece pelo espírito, mas apenas pelo denominador comum do lucro. A política deixou de ser a procura do "Bem Comum" para ser a gestão das "Conveniências de Mercado". A instituição passou a ser a alcoviteira que negoceia o preço de cada princípio em função de uma "suposta" estabilidade financeira.

​A tragédia institucional reside no facto de a Europa política ter passado a servir clientes que não habitam a sua casa. Os grandes lóbis, os mercados financeiros desregulados e a tecnocracia apátrida são os amantes de uma noite que ditam as leis nesta escondida alcova europeia.
Neste processo, os seus próprios "filhos" ( os cidadãos e as nações ) são vistos como obstáculos à transacção. A instituição política, tal e qual uma meretriz que teme a intimidade real, afasta o povo com um sorriso gélido e tecnocrático, preferindo a segurança de um contrato assinado à paixão de um destino partilhado.

​A Europa política prostitui a sua herança intelectual ao aceitar que qualquer valor pode ser transaccionado, desde que a balança comercial esteja equilibrada. Se tudo tem um preço, nada tem valor...

Se a Europa se comporta como uma meretriz que vendeu a sua essência ao mercantilismo e ao niilismo, os europeus de hoje são os filhos que crescem nos corredores desse bordel, observando a mãe a despir-se de tudo o que era sagrado em troca de uma sobrevivência oca.
​Para estes filhos, a cultura já não é uma seiva que corre nas veias, mas os restos do banquete que os amantes da mãe deixaram sobre a mesa.

A cultura europeia foi reduzida a um espectáculo de entretenimento para turistas. Os seus filhos vêem os seus monumentos e tradições serem tratados como cenários de fundo para o deleite alheio. Muitas vezes, estes filhos são ensinados a ter vergonha da mãe e, em vez de compreenderem a complexidade da sua história, são instruídos num auto-ódio que os leva a desprezar a própria herança, preferindo adoptar modas e identidades estrangeiras (americanizadas ou globalistas) que nada têm a ver com o seu solo.

Filipe Carvalho 

Depois de expor a decadência da Europa enquanto corpo civilizacional que se prostitui aos seus próprios negadores, o meu "olhar" afunila. A crítica deixa o plano simbólico e estrutural para pousar num dos instrumentos centrais dessa decadência: a mediação da realidade.
Se em Europa meretriz a acusação recai sobre instituições que trocam valores por conveniência, em Jornalixo a denúncia dirige-se àqueles que deveriam ser guardiões da clareza e da escuta pública. O que antes era descrito como prostituição civilizacional manifesta-se agora como escremento mediático: a transformação da informação em espectáculo, do debate em emboscada e  do jornalismo em performance narcisista.

Crónica 3 "Jornalixo"
 
Não é um texto escrito no calor do momento, mas a partir da repetição exasperante de um "vício" observado vezes demais.

Há um vício que se alastra pelo jornalismo contemporâneo : a interrupção constante, ansiosa e ostensiva dos convidados políticos, independentemente do seu quadrante ideológico. Não se trata de vigilância democrática, nem de escrutínio sério; trata-se, antes, de uma encenação ruidosa onde o jornalista se coloca no centro do palco, não como mediador esclarecido, mas como protagonista vaidoso de um combate que só existe para as câmaras.

O entrevistador que interrompe compulsivamente não procura respostas; procura armadilhas. Formula perguntas não para compreender, mas para "entalar", não para informar o público, mas para colher um momento de embaraço, um tropeção verbal que possa ser reciclado em manchete ou um avassalador excerto viral. Esta prática profundamente desleal revela uma concepção pobre da profissão e um desprezo mal disfarçado pelo espectador, tratado como um consumidor de espectáculos e não como um cidadão pensante.

Nestes interrogatórios travestidos de entrevistas, existe uma agressividade que roça a má-educação. O político é convidado — não convocado para um tribunal sumário — e, no entanto, mal inicia uma frase, é cortado, corrigido, atropelado por apartes e insinuações. O raciocínio deste é impedido de se desenvolver e a sua possível explicação é sufocada antes de ganhar qualquer forma. Depois, com alguma regularidade cínica, acusa-se o entrevistado de não responder.

Mais grave ainda é a cobardia intelectual subjacente às chamadas "perguntas com armadilha". Este comportamento não fortalece a democracia; corrói-a! Substitui o debate pelo ruído e a escuta pela interrupção. Um jornalista que não sabe ouvir impõe-se; e ao impor-se, trai a sua função essencial, a de esclarecer.

Os contribuintes merecem ouvir, de forma clara e contínua, aqueles que os representam. Merecem escutar ideias completas, raciocínios articulados e posições assumidas sem o constante abafamento de interrupções oportunistas. Cada palavra cortada é uma parcela de informação subtraída ao cidadão, que paga ( literal e democraticamente ) para ser informado, não para assistir a um duelo de egos.

Do mesmo modo, os contribuintes merecem um jornalismo isento de qualquer militância política, explícita ou disfarçada. O jornalista (em função) não pode ser activista, nem procurador, nem candidato frustrado.
Quando a entrevista se transforma num exercício de hostilidade selectiva ou num julgamento enviesado, a informação cede lugar à propaganda e a confiança pública dissolve-se.

Um país onde o povo deixa de confiar na imprensa é um país mais pobre, não apenas em informação, mas em liberdade.

Filipe Carvalho 

Quando a imprensa deixa de esclarecer e a política se converte em espectáculo, resta ao povo reaprender a presença.
Jornalixo expõe o colapso da palavra pública — interrompida, manipulada, instrumentalizada. Eu tenho um sonho: uma marcha negra e muda surge como resposta directa a esse esgotamento do discurso. Se a palavra foi prostituída, então o silêncio torna-se na única, subversiva e legítima linguagem.

Crónica 4 "Eu tenho um sonho: uma marcha negra e muda"​

Sonho com uma coluna de homens e mulheres que avance numa marcha negra e muda até São Bento. ​A minha visão é uma linha recta de negro austero. Milhares de homens e mulheres, despidos de adornos, caminhando sem proferir uma única sílaba. Que o único som que se ouça em Lisboa seja o eco seco das solas contra o chão.

Repudio a "manifestação em festa".  A alegria forçada é a máscara da decadência. Nós, pelo contrário, seremos a consciência sombria da Nação.

​Marcharemos em silêncio. Um silêncio tão denso que se sinta o latejar das têmporas e o ranger dos passos no asfalto. Porquê? Porque as palavras foram gastas, conspurcadas e traídas. Cada promessa vã, cada acto de abdicação da nossa soberania e da nossa identidade, foi selado com discursos vibrantes. Contra a loquacidade da traição, ergueremos a mudez da honra.

Cada olhar fixo no horizonte, cada coluna erecta, acusará contra aqueles que julgaram que o espírito de Portugal se compraria com o brilho de quinquilharias estrangeiras.
​Chega de palhaços, de apitos e de coreografias de cartaz na mão. A política do espectáculo é a morfina dos povos que já se renderam.

​Basta de manifestações que parecem festivais de Verão. Quem sorri enquanto a sua identidade é apagada ou é cúmplice ou é idiota.
Que cada passo mudo seja um murro na mesa daqueles que assinaram as sentenças de traição contra o povo português. 

​O Negro será o uniforme da intransigência de quem já não aceita as cores da propaganda; e a Mudez será o desprezo supremo. Não se fala com quem nos vendeu o berço; olha-se-lhes nos olhos até que desviem o rosto.

No meu humilde sonho, esta marcha far-se-á com o rigor de uma sentença. Não haverá lugar ao caos, ao insulto fácil ou à violação das normas que regem o espaço público; marcharemos dentro da lei, pois é na ordem e na disciplina absoluta que reside a nossa superioridade sobre aqueles que desgovernam a Pátria. Que a nossa conduta seja irrepreensível e o nosso passo ordeiro, para que nem o mais cínico dos detractores possa apontar-nos outra falha que não seja a de amarmos Portugal com uma severidade que eles desconhecem. Seremos a ordem viva frente à desordem moral deste regime.

Filipe Carvalho 

Se "a marcha negra e muda" representa a forma mais elevada de oposição — contida, ordenada, consciente — a crónica que se segue mergulha no seu exacto oposto: a política transformada em entretenimento, em consumo despreocupado e em folclore ideológico.
Depois de exigir rigor, disciplina e gravidade, lanço farpas à irresponsabilidade festiva de uma sociedade que quer usufruir da estética sem assumir o peso da substância. 
Há momentos em que a ironia é a única linguagem possível para expor a hipocrisia sem véus.

Crónica 5 "Avante carneirada, avante!"

Escrevi a partir da minha irritação perante a infantilização política do adulto urbano — aquele que exige pureza moral absoluta aos outros, mas suspende qualquer exigência a si próprio desde que haja música, álcool e validação social. É um estado de espírito marcado pela recusa da ingenuidade fingida.
Avante carneirada, avante! surge, assim, como um espelho cruel colocado diante de uma geração que se julga esclarecida, mas que dança alegremente sobre cadáveres históricos .

Há um fenómeno curioso que todos os anos se repete: a romaria laica à chamada Festa do Avante. Não se trata apenas dos militantes que lá vão prestar vassalagem à foice e ao martelo, isso seria, pelo menos, intelectualmente honesto. O que me fascina é a turba dos "não comunistas", os que juram, com o ar cândido dos justos, que só vão "pela música", "pela cerveja barata" ou "porque tem ambiente".

É como ir a uma conhecida cadeia de hambúrgueres e pedir uma salada. Mas, quando se trata do PCP, parece que a ideologia pode ser enrolada em cheirinho a bifana, e o consumidor sai de consciência tranquila; como se não tivesse passado o fim de semana a financiar uma máquina partidária que ainda hoje idolatra regimes que prenderam, torturaram e mataram milhões.

O mais patético não é o comunista declarado, esse, ao menos, tem a coragem da sua convicção, mesmo que seja uma convicção irremediavelmente falida. O mais patético é o hipster urbano, aquele que passa o ano a ostentar indignação moral contra qualquer tiquetaque de "fascismo", mas que depois paga alegremente bilhete para uma liturgia de um partido que nunca pediu desculpa pelos crimes de Estaline, Mao ou Fidel.

A hipocrisia é deliciosa, o mesmo sujeito que acusa Portugal de ser "estruturalmente racista" e o Ocidente de "imperialista" dança,  de copo de plástico na mão, sob o patrocínio de uma ideologia que fuzilou dissidentes, calou minorias e ergueu muros. Tudo, claro, "pela festa".

Talvez seja essa a síntese da decadência contemporânea, cidadãos que desprezam a história, incapazes de ligar as suas opções triviais ao contexto político. O bilhete do Avante não é inocente; é um voto de complacência e cumplicidade.

No fundo, ir ao Avante "só pela música" é a versão cultural da velha desculpa do burocrata soviético: "eu só carimbei o papel". Ambos colaboram, um com um selo no processo, o outro com uma cerveja na mão. A banalidade do mal também se dança ao som de guitarras eléctricas e ritmos estonteantes.
É a grande hipocrisia do nosso tempo, a de relativizar o totalitarismo vermelho porque dá jeito, porque tem ambiente ou porque fica bem nas redes sociais.

Soljenítsin lembrou-nos que quando alguém escolhe ignorar a história em troca de uma noite de música, o resultado é sempre a mesma complacência que manteve tantos tiranos no poder.

A grande ironia é que estes foliões, que se julgam modernos e progressistas, não são mais do que os figurantes inconscientes de uma velha peça. Dão corpo e dinheiro a um partido que vive da memória fossilizada de um regime fracassado enquanto dançam. Pensam estar livres da política; mas na verdade já são parte dela, com o bilhete carimbado e com o selo da sua própria ingenuidade útil.

Filipe Carvalho 

Aqui, o meu olhar crítico desloca-se para o espaço onde a mesma política da anterior crónica se infiltra de forma mais silenciosa e permanente — o espaço urbano.

Crónica 6 "Arte, vandalismo ou política?"

É um texto escrito a partir do respeito pela cidade enquanto espaço partilhado e da recusa de qualquer pedagogia forçada, mesmo quando se apresenta sob a forma de arte.

Nas paredes das cidades modernas, entre o cinzento do betão e o ruído do trânsito, o grafiti ergue-se como uma linguagem silenciosa mas eloquente. É, para uns, a mais pura expressão artística da era urbana; para outros, um acto de vandalismo que macula o espaço público. No entanto, antes de julgarmos, importa compreender a sua origem, o seu propósito e o contexto em que floresce.

O grafiti, enquanto prática, não nasceu nas metrópoles contemporâneas. Desde as inscrições nas paredes de Pompeia até às gravuras rupestres, o impulso de deixar marcas visuais no espaço comum acompanha o ser humano desde tempos imemoriais. Contudo, o grafiti moderno, tal como o entendemos hoje, emergiu nas décadas de 1960 e 1970, especialmente nas ruas de Nova Iorque. Jovens de bairros marginalizados, armados de latas de spray, começaram a assinar comboios e muros com os seus "tags", reclamando uma certa visibilidade num mundo que, na sua visão, os ignorava. 

Com o tempo, a estética do grafiti evoluiu e, das simples assinaturas passaram-se a murais complexos, repletos de cor, ironia e crítica social. Artistas como Banksy, em Londres, ou Vhils, em Lisboa, mostraram que o grafiti podia transcender o anonimato e dialogar directamente com o público, questionando a sociedade, a política e o próprio conceito de arte.

Para o poder instituído, o grafiti é frequentemente uma afronta à ordem, uma violação do espaço público e da propriedade privada. Para o artista, será uma forma de resistência e de reapropriação da cidade.
Há ainda quem veja no grafiti uma forma de militância política. E, em tempos de desencanto social, as paredes tornam-se veículos de mensagens, símbolos e imagens que denunciam injustiças. Talvez, no fundo, a força do grafiti resida precisamente nessa ambiguidade: é arte e é desobediência, é beleza e é provocação. O seu valor não se mede pela legalidade, mas pela intensidade com que interpela quem o observa.

Contudo, há um reverso nesta paisagem pintada e, quando a arte se torna um veículo exclusivo de uma ideologia, corre o risco de perder a sua alma livre. Venho de Almada, uma cidade de margens e de memórias, moldada pelo Tejo e pelas ideias. E, desde sempre, Almada viveu intensamente a política — sobretudo a das esquerdas — e isso sente-se nas suas ruas, nos seus bairros e, sobretudo, nas suas paredes. Aqui, o grafiti e o muralismo confundem-se com a própria identidade colectiva: não são apenas manchas de cor, são capítulos visuais de uma história feita de "luta", esperança e consciência social (não se sabe muito bem qual).

A arte, enquanto força transformadora, deve incomodar, sim; não obstante, o espaço urbano, que deveria ser um campo aberto de diálogo e confronto de visões, transforma-se num território ocupado por discursos pré-fabricados. 
Só onde há divergência pode haver arte; mas só onde o muro é de todos pode haver cidade.

A liberdade artística não deve existir à custa da liberdade alheia. A propriedade privada, tão vilipendiada por alguns, é também um espaço de autonomia e de expressão individual. Pintar uma parede que não nos pertence é, por mais nobre que pareça a intenção, uma forma de apropriação indevida e uma imposição ao outro de uma mensagem que não escolheu receber. Porque liberdades forçosas e sem responsabilidade são apenas outra forma de vandalismo totalitário.

Filipe Carvalho 

Depois da denúncia, do escárnio e da recusa, impõe-se uma pergunta mais difícil: para quê?
Resistir, criticar, disciplinar — tudo isso perde sentido se não desembocar numa ideia de continuidade. Um povo não se define apenas pelo que rejeita, mas sobretudo pelo que decide preservar e transmitir.

Crónica 7 "Garantir um futuro de esperança para as próximas gerações"

Depois de tantas crónicas marcadas pela denúncia da decadência, esta recorda que o futuro não se constrói com "boas intenções" globais, mas com raízes, cuidado e continuidade. Aqui, a identidade deixa de ser apenas algo a defender  e passa a ser algo a entregar.

Ao longo da História, muitas vezes se proclamou o ideal de amar a humanidade inteira. Mas permanece uma questão inevitável: como pode alguém declarar amor ao mundo se descuida aqueles que lhe estão mais próximos? Como recordava Aristóteles, "o homem é por natureza um animal político", isto é, um ser enraizado em comunidade. A universalidade não é uma fuga ao concreto; é a sua projecção. Amar a humanidade exige, em primeiro lugar, amar os filhos que prolongam a nossa existência, guardiões vivos do que recebemos e arautos do que virá.

António Sardinha, pensador do Integralismo Lusitano, advertia que um povo sem tradição não é senão “um ajuntamento de homens”, incapaz de destino. Essa tradição, no entanto, não é uma relíquia estática, transmite-se, como um fogo, às novas gerações. São as crianças que asseguram a continuidade da Pátria, da Língua e da Fé. Se não lhes damos herança, se não lhes oferecemos raízes, condenamo-las a viver num vazio cultural, órfãs de História e de sentido.

José Ortega y Gasset, no seu célebre "A Rebelião das Massas", lembra-nos que o homem contemporâneo corre o risco de se dissolver na abstracção, perdendo o peso das referências que lhe dão forma. Essa dissolução manifesta-se, de modo particular, na recusa de cuidar do futuro das crianças. Fala-se de humanidade, mas esquece-se o lar; proclama-se fraternidade universal, mas abandona-se a missão primeira de educar e proteger os mais novos. Ora, sem raízes não há frutos, e sem frutos não existe dádiva possível ao mundo.

Agostinho da Silva, embora de espírito mais universalista, lembrava que "não se pode criar nada de novo se não se conhecer profundamente o que se é". A abertura ao mundo não se opõe à fidelidade às origens; pelo contrário, depende dela. Uma árvore só se abre ao céu porque está profundamente enraizada na terra. Assim também, só um povo fiel aos seus filhos pode aspirar a contribuir, de modo autêntico, para a humanidade inteira.

A tradição cristã, tão fundadora da nossa identidade, reforça esta mesma verdade. No Evangelho, Cristo chama as crianças ao centro, recordando que nelas reside a pureza e a promessa do Reino. Se até a fé, na sua dimensão mais espiritual, vê nas crianças um espelho do futuro, como poderia uma civilização manter-se viva se as relegasse para segundo plano?

Amar o futuro das nossas crianças é o mais alto acto de fidelidade aos antepassados, ao presente e ao porvir. É cumprir o mandato de continuidade que nos foi confiado. Sem essa fidelidade, o universalismo é apenas uma ilusão vazia; pois, em última instância, cuidar dos nossos filhos é a forma mais autêntica, mais concreta e mais fecunda de amar a humanidade.

Filipe Carvalho 

Não se pode falar seriamente de filhos, transmissão, herança e futuro sem enfrentar a questão das Migrações em massa. Tudo o que foi dito antes (identidade, cidade, cultura, natalidade, hospitalidade, universalismo ) converge inevitavelmente neste ponto.

Crónica 8 "Migrações em massa" 

Entre os fenómenos mais disruptivos da contemporaneidade, poucos suscitam tantas tensões quanto o das migrações em massa. Mais do que fluxos humanos ocasionais, trata-se hoje de movimentos planetários, incentivados por factores económicos, políticos, ideológicos e demográficos. O que outrora eram deslocações episódicas, mais ou menos assimiláveis, transformou-se numa vaga global que redesenha fronteiras, altera equilíbrios culturais e coloca em causa a continuidade histórica dos povos europeus.

A reflexão filosófica e sociológica não pode ignorar esta realidade. Não basta olhar para os números, nem reduzir o debate a estatísticas de emprego ou a cálculos financeiros. A questão é mais profunda: toca o núcleo da identidade, da comunidade e do destino das nações. Como escreveu Alain de Benoist, "não se trata de saber quantos entram, mas de compreender o que significa deixar de ser si mesmo".

A questão de fundo é clara: pode a Europa continuar a ser Europa sob o peso da imigração maciça e da fragmentação cultural que dela decorre?

A mobilidade humana acompanha a história da humanidade. Povos migraram desde tempos imemoriais, seja por fome, guerra ou curiosidade. Mas a lógica histórica da migração era, regra geral, a de pequenos fluxos, relativamente assimiláveis pelo corpo social que os recebia. Os mecanismos de integração funcionavam porque os números eram limitados e o seu ritmo era lento.

O século XXI, porém, assiste a uma inquestionável mutação. Nunca, em tão pouco tempo, tantos milhões de pessoas se deslocaram em direcção ao continente europeu. Os fluxos contemporâneos,  porém, são agora massivos, contínuos e muitas vezes desprovidos de critérios de selecção. A diferença não é apenas quantitativa, mas sobretudo, qualitativa.

Guillaume Faye, no seu Pourquoi nous combattons, não hesitou em falar de "colonização inversa". Segundo ele, a imigração maciça não é comparável a migrações passadas, porque não se trata de pequenas minorias assimiladas, mas de povos inteiros que, mantendo-se culturalmente coesos, instalam-se em território alheio sem intenção de fusão.

A Europa, de espaço de acolhimento limitado, transformou-se num destino final de movimentos globais que trazem consigo identidades fortes e frequentemente impermeáveis. Esta diferença estrutural coloca desafios inéditos às sociedades receptoras.

Um dos argumentos mais repetidos para justificar a imigração em massa é o da necessidade económica. Face ao envelhecimento demográfico e ao declínio das taxas de natalidade, sustenta-se que apenas a chegada de milhões de trabalhadores estrangeiros pode assegurar o financiamento do Estado social.

Este raciocínio, porém, revela-se falacioso sob diversos pontos de vista. Em primeiro lugar, porque reduz o ser humano a uma mera unidade de produção. Em segundo, porque ignora os custos sociais, culturais e securitários associados a fluxos incontrolados. 

Além disso, a experiência empírica demonstra que a imigração maciça não resolve, antes agrava, as tensões do Estado social. A chegada contínua de populações com baixas qualificações sobrecarrega os sistemas de saúde, educação e segurança social, gerando desequilíbrios financeiros e fracturas sociais. 

Outro argumento dominante é o do multiculturalismo. A ideologia multicultural parte do pressuposto de que diferentes culturas podem coexistir harmoniosamente no mesmo espaço, enriquecendo-se mutuamente. Aqui, o ideal cosmopolita é apresentado como inevitável e desejável.

Todavia, a realidade mostra o contrário. As sociedades multiculturais não são espaços de convivência pacífica, mas de fragmentação. Em vez de fusão, surgem enclaves identitários e em vez de diálogo, florescem tensões.

O multiculturalismo, longe de gerar diversidades vivas, conduz a uma forma de balcanização interna. Cidades inteiras da Europa tornaram-se mosaicos de comunidades paralelas, com pouco ou nenhum contacto entre si. As instituições nacionais perdem capacidade de integração e a identidade comum dissolve-se.

A tradição europeia valoriza profundamente a hospitalidade. Da xenia grega às práticas cristãs, o acolhimento do estrangeiro foi sempre considerado uma virtude. No entanto, toda a hospitalidade pressupõe limites. Só uma comunidade sólida e consciente da sua identidade, pode acolher sem se perder.

"Um povo que confunde generosidade com abdicação está condenado a desaparecer".
Dominique Venner 

A hospitalidade pressupõe equilíbrio entre abertura e defesa. Acolher o outro não pode significar negar-se a si mesmo. A verdadeira hospitalidade só é possível quando existe uma identidade forte que delimita o dentro e o fora, o nós e o eles.

Poucos temas são tão decisivos como o demográfico. A Europa, marcada por décadas de natalidade em declínio, assiste ao fenómeno inquietante de em várias cidades, as populações autóctones já serem minoritárias entre as novas gerações.

Este processo traduz-se numa substituição demográfica que altera irreversivelmente a paisagem cultural e civilizacional. As consequências são visíveis: escolas onde a língua nacional já não é dominante, bairros inteiros onde a cultura europeia é marginal e  símbolos nacionais substituídos por práticas alheias. Este não é um simples desafio conjuntural, mas, infortunamente, uma transformação estrutural.

O discurso humanitário frequentemente oculta os usos estratégicos da migração. Potências regionais e actores transnacionais utilizam os fluxos humanos como instrumento de pressão.

Guillaume Faye falava de "armas de migração massiva"; isto é: deslocamentos incentivados não apenas por pobreza ou guerra, mas manipulados como uma forma de chantagem geopolítica. Um Estado pode abrir as suas fronteiras para projectar fragilidade sobre o vizinho; as redes criminosas exploram o tráfico humano e organizações internacionais incentivam a deslocação sob o pretexto de direitos universais.

Assim, o fenómeno migratório não é neutro. É também um campo de poder, onde se confrontam, estrategicamente, interesses globais e locais.

As consequências da imigração em massa não se limitam ao plano económico ou securitário; a questão central é cultural e civilizacional. 

"O multiculturalismo conduz, em última instância, ao desaparecimento da cultura mais frágil, que é sempre a do país de acolhimento. A Europa arrisca-se a tornar-se uma periferia da África e do Médio Oriente".
Guillaume Faye 

Face a esta situação, proteger fronteiras é indispensável, mas não basta. É necessário revitalizar a cultura nacional, reencontrar a natalidade, fortalecer as famílias, recuperar os símbolos e reactivar a consciência histórica. Só um povo profundamente enraizado pode resistir às pressões externas.

"Defender a identidade não é odiar o outro, mas amar a si mesmo o suficiente para não se dissolver".
Alain de Benoist 

O termo "substituição demográfica", embora polémico, é um conceito que exprime a sensação vivida por muitos europeus de se tornarem estrangeiros na sua própria Pátria.

"Não somos apenas habitantes de uma terra, somos a sua memória. Se a substituição se consumar, a Europa deixará de existir como civilização, mesmo que continue a existir como território".
Dominique Venner 

A questão não é, portanto, de mera convivência. É de continuidade. A Europa não pode ser Europa sem europeus.

A imigração em massa coloca a Europa perante uma encruzilhada histórica. Ou reencontra a força para afirmar a sua identidade, controlando os fluxos e revitalizando as suas raízes, ou resigna-se a uma lenta dissolução, transformando-se numa mera extensão geográfica de outras civilizações.

Filipe Carvalho 

Depois da angústia demográfica, da pressão externa e da ameaça de dissolução, impõe-se uma pergunta mais exigente: que tipo de homem queremos preservar? Porque não há identidade sem estrutura, nem continuidade sem ordem interior.

Crónica 9 "Corporativismo, o Kaizen europeu"

Há aqui uma busca de síntese entre o Oriente e o Ocidente, entre a técnica e a moral, entre a liberdade e o dever. O Kaizen foi-me "ensinado" quando trabalhei na portuguesa SONAE.

A Crónica 9 surge como uma resposta positiva à crise descrita nas páginas anteriores. Onde o liberalismo reduziu o homem a consumidor e o marxismo o dissolveu na massa, o corporativismo é apresentado como uma tentativa europeia de reencontrar o homem inteiro: trabalhador, cidadão e ser moral.

O Oriente deu-lhe o nome de Kaizen — a filosofia da melhoria contínua, da disciplina silenciosa e da perfeição que se procura a cada instante. Não se trata apenas de um método de trabalho; mas de uma forma de vida. O Kaizen ensina que tudo pode ser aperfeiçoado: o gesto, o processo, o resultado e, sobretudo, o carácter. É a arte de ser constante e consistente, da humildade e da superação diária, onde o sucesso nasce da repetição consciente e da responsabilidade partilhada.

Alguns anos antes, aquilo que o Japão aplicou à fábrica, a Europa tentou aplicar à sociedade. No seu âmago mais profundo, o Corporativismo foi o Kaizen humano, o esforço europeu para aperfeiçoar não apenas o trabalho, mas a própria ordem social. 
O Corporativismo nasce da mesma consciência que anima o Kaizen; assim como o operário japonês se aperfeiçoa no seu posto, o homem corporativo aperfeiçoa-se na sua função social. Cada um trabalha não por imposição, mas por convicção; não para dominar, mas para colaborar.

A modernidade europeia, embriagada pelo Liberalismo e pelo Marxismo, reduziu a liberdade a alguns caprichos e o homem a um número consumidor. O Liberalismo, por um lado, fez da economia uma arena onde o mais forte triunfa e o mais fraco desaparece. Nesta perspectiva, o trabalho deixou de ser uma vocação para se tornar numa mercadoria.
O Marxismo, em contrapartida, quis curar essa ferida com outra, substituindo o egoísmo pelo ódio e a liberdade pela tirania da igualdade absoluta. Ambos mutilaram o homem; um em nome do lucro, o outro em nome da revolução.

O Corporativismo, tal como o Kaizen, ergueu-se como resposta moral a este duplo fracasso. Recusou o caos liberal e o dogma marxista, propondo uma terceira via de aperfeiçoamento humano, dando ao trabalho uma expressão da dignidade, equilibrando a liberdade e o dever.

O Corporativismo concebe a sociedade como um organismo vivo, em que cada profissão, cada indivíduo e cada instituição são partes interdependentes de um todo. E, tal como na fábrica japonesa cada trabalhador conhece o seu papel na linha de produção, na sociedade corporativa cada homem reconhece o seu dever na construção do bem comum.
Esta visão orgânica, inspirada em Aristóteles e em São Tomás de Aquino, vê a liberdade não só como independência, mas também como ordem interior.

Leão XIII, em Rerum Novarum (1891), já o afirmava: "O trabalho não é vergonha, mas honra, pois é pelo trabalho que o homem se sustenta e serve a sociedade." Pio XI, em Quadragesimo Anno (1931), completou: "Nem o individualismo nem o colectivismo podem salvar a sociedade moderna; ambos conduzem à ruína moral e económica."

No coração desta filosofia o trabalho é o gesto que liga o homem à comunidade, o meio pelo qual este participa no aperfeiçoamento da obra comum.
O homem corporativo, tal como o trabalhador do Kaizen, não vê no labor um fardo, mas uma vocação. A perfeição técnica e a perfeição moral unem-se num mesmo ideal de melhoria contínua, aplicada ao espírito, tornando-se uma virtude que, aplicada à sociedade, exponencía a justiça.

O Corporativismo será, pois, uma espécie de Kaizen humano; o esforço incessante de elevar o trabalho à dignidade de missão, e a liberdade à dignidade de virtude.

E, num tempo em que se clamam direitos como bandeiras inabaláveis, o Corporativismo ergue-se como a prova de que não há direitos sem deveres, nem dignidade sem trabalho. 
No fim, o homem descobre que é no merecimento que o direito floresce, e que é no dever que o direito encontra a sua nobreza.

Filipe Carvalho 

Há um momento, na decadência de todas as civilizações, em que o problema deixa de ser o erro e passa a ser a negação desse mesmo erro. É nesse instante que a política deixa de servir povos concretos e passa a fabricar realidades artificiais. 

Crónica 10 "Europa: o monstro retalhado"

Um corpo artificial, montado peça a peça por elites que renegaram a própria herança e animado por uma electricidade ideológica que não lhe pertence. Não nasceu de um povo, nem de uma continuidade histórica orgânica, mas de um laboratório iluminado pela abstração, pelo universalismo e pela negação das raízes. O seu criador não foi a tradição, mas o engenheiro social; não a memória, mas "o projecto".

A criatura europeia vagueia hoje sem rosto e sem alma. Fala todas as línguas e, ao mesmo tempo, nenhuma; proclama valores universais enquanto despreza o particular; invoca os direitos do homem enquanto esquece os deveres desse mesmo homem para com a sua terra e os seus antepassados. Tal como o monstro de Frankenstein, esta criatura é temida não por aquilo que é, mas por aquilo que lhe falta: identidade, pertença e sentido. A sua violência manifesta-se não no excesso, mas num vazio preenchido por uma moral abstracta e por uma culpa permanente.

Os criadores "desta" Europa (tecnocratas, comissários, juristas sem pátria) horrorizam-se agora com a reacção da criatura. Chamam-lhe populismo, extremismo e regressão. Mas tal como Victor Frankenstein (figura do homem moderno, desenraizado e embriagado pela sua própria inteligência), recusam reconhecer a própria responsabilidade. Foram eles que cortaram os laços naturais entre o povo e o poder, entre a cultura e a política, entre nação e soberania. Foram eles que ensinaram a criatura a odiar o seu próprio corpo, a desconfiar da sua história e a pedir desculpa por existir.

A Nova Europa, tal como o monstro, quer saber quem é, de onde vem, e para onde vai. Mas os seus criadores só lhe oferecem mais engenharia social, mais imigração massiva como substituto demográfico e mais dissolução cultural em nome de um humanitarismo sem fronteiras. Assim, a criatura revolta-se; não por maldade, mas por instinto de sobrevivência.

Tal como em Frankenstein, o verdadeiro horror não é a criatura que se ergue, mas o criador que dela foge. 
Ou Victor Frankenstein regressa para assumir a paternidade da sua obra ou a criatura continuará a caminhar sozinha, entre ruínas e promessas quebradas. Não como ameaça ao mundo, mas como espelho da decadência de quem ousou criar sem amar, unindo (em retalho) aquilo que não pertence.

Filipe Carvalho 

Conclusão 

Nada do que aqui se escreveu é um lamento, nem um exercício de nostalgia. É, antes, um gesto de lucidez. As civilizações não morrem assassinadas; dissolvem-se quando deixam de se reconhecer. A Europa não será destruída por inimigos externos, mas pelo esquecimento voluntário daquilo que é. Enquanto persistir em negar as suas raízes, continuará a produzir monstros administrativos, projectos sem alma e povos sem voz. O dia em que aceitar olhar-se ao espelho sem culpas importadas e sem abstrações redentoras; então poderá ainda reencontrar-se. Até lá, caminhará como uma criatura errante: viva biologicamente, mas morta como civilização.

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