VIRTUOSAMENTE VOL.8
Edmund Burke, para os incautos, não foi um mero político ou um diletante das letras. Foi, antes de tudo, um gigante intelectual do século XVIII, um irlandês com o pragmatismo de um inglês, que se tornou um dos maiores pensadores do conservadorismo moderno. A sua obra-prima, as "Reflexões Sobre a Revolução em França" (1790), não foi apenas um panfleto; foi uma profecia. Enquanto os seus contemporâneos se deslumbravam com os fogos de artifício da guilhotina e os brados de "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", Burke via o abismo. Ele previu o caos, a tirania e o banho de sangue que se seguiria à demolição radical das instituições e tradições.
Burke defendia a prudência, o progresso lento, respeitoso da herança e da experiência acumulada. Acreditava na sabedoria dos séculos, na autoridade da tradição, na importância da religião e da família como pilares da sociedade. Para ele, a liberdade não era um conceito abstrato a ser imposto por decretos revolucionários, antes uma herança a ser protegida, moldada e transmitida através das gerações. Foi um profeta que berrou no deserto da razão iluminista, e a História, essa velha senhora implacável, deu-lhe razão com juros.
Ora, se Burke tivesse a felicidade (ou a sorte, vá lá) de nascer português, nasceria, quiçá, numa quinta soalheira no Alentejo ou numa casa senhorial minhota, imbuído do cheiro a terra e a pergaminhos bolorentos.
A sua grande obra, em vez de ser sobre a Revolução Francesa, seria, seguramente e, em grande título, debruçada nos "Perigos da Esquerda Caviar". Sim, porque em Portugal, a Revolução que nos assombra não é a da Bastilha, mas sim a eterna e mastigável Revolução dos Cravos, que, mais de meio século depois, continua a ser o biombo para todo o tipo de aberrações e a desculpa para a inacção.
O nosso Burke lusitano seria, sem dúvida, considerada por muitos, uma figura excêntrica. Seria convidado para alguns debates televisivos, onde seria interrompido constantemente por comentadores de imparcialidade duvidosa e , que o acusariam de ser "reaccionário", "fascista" e, claro, "elitista" – o epíteto supremo para silenciar quem pensa. Burke tentaria explicar a importância da prudência na gestão daquilo que é público e, certamente, seria abafado por clichês sobre progresso, inclusão e outros substantivos "vitimeiros".
A sua defesa das tradições seria vista como um folclore bafiento, ideal para animar turistas; e o seu apreço pela religião seria rotulado de "obscurantismo clerical". Já a sua valorização da família tradicional faria com que fosse cancelado nas redes sociais em menos de uma hora, acusado de "homofobia" e "misoginia".
Provavelmente, o nosso Burke português e os seus avisos sobre os perigos da demolição institucional, da desordem moral e da cegueira ideológica seriam tratados como divagações de um lunático extravagante.
E no final, quando as consequências das políticas irrefletidas, da utopia desenfreada e do abandono das nossas raízes se manifestassem em pleno, restaria apenas o eco distante da sua voz, silenciada pela arrogância do "novo" e pela paixão pelo efémero.
Teríamos, sem dúvida, perdido um profeta. Mas, mais do que isso, teríamos perdido a oportunidade de aprender com ele, presos na nossa bolha de certezas progressistas. E isso, meus caros, é a verdadeira tragédia da nossa (des)ventura lusitana.
Filipe Carvalho
Misantropia: desprezo ou desespero?
A misantropia, esse desprezo sereno ou desesperado pelo homem, não é apenas um sentimento isolado de eremitas e cínicos, é, conjuntamente, um sintoma generalizado da falência civilizacional. Numa perspectiva "Evoliana", que se ergue sobre os escombros da modernidade com a coragem de quem não teme ser impopular, a misantropia não é uma anomalia, mas sim um reflexo lúcido da decadência do humanismo progressista.
"O homem moderno é um anjo caído que se esqueceu do Céu e nega o Inferno."
Assim escrevia, com ironia cortante, Nicolás Gómez Dávila; esse pensador colombiano que se tornou, postumamente, um dos oráculos da Nova Direita. A misantropia, neste contexto, não se trata de um mero desdém pelo próximo, mas antes uma justa repulsa por aquilo em que o homem se converteu: um narcisista moralmente relativista e escravo de desejos baixos.
A verticalidade compreende que o desprezo pelo homem não vem de uma frieza moral, mas de uma lucidez trágica.
Sempre que contemplamos o espectáculo grotesco da modernidade, celebramos a ignorância como autenticidade, a imoralidade como liberdade e a destruição da tradição como progresso.
Mas não nos enganemos: o misantropo da Nova Direita não odeia o homem por capricho e mesquinhez; odeia o homem deformado, desnaturado e desconectado da transcendência. Encaremos esta corrente filosófica pessimista de uma forma selectiva, aristocrática, que não despreza o ser humano em si, mas o animal domesticado pelo igualitarismo e embrutecido pelo consumo.
Contra isso, propõe-se uma restauração espiritual, ética e estética. Não se trata de regressar a um passado idealizado, mas de reconstituir as condições para que o humano volte a ser digno de amor, ou pelo menos, de respeito.
Como advertia Ernst Jünger:
"O tempo do titã termina; o tempo do herói começa."
Portanto, a misantropia, nesta direcção, não é niilista, mas reaccionária no mais nobre dos sentidos. Importa a sua reacção, com veemência e estilo, ao mundo onde o belo é ridicularizado, o sagrado é profanado e o verdadeiro é relativizado. Apruma-se assim uma repulsa quanto ao conceito de que o último homem de Nietzsche seja o destino inevitável da civilização.
A palavra misantropia provém do grego e, etimologicamente, é o ódio ao homem. Mas é preciso depurá-la deste verniz vulgar que a reduz a uma mera antipatia mal-humorada. Na tradição filosófica e literária, a misantropia é uma reacção de espírito elevado que conhece demasiado bem a humanidade para iludi-la com esperanças fáceis.
Em Sófocles, encontramos personagens cuja nobreza é incompatível com a vilipendia ao mundo; homens que se retiram estratégicamente, não por cobardia, mas por altivez. Já Shakespeare, em Timon de Atenas, apresenta-nos um homem que, traído por todos, se torna misantropo como forma de fidelidade a um ideal de amizade e honra, raro no mundo.
O misantropo moderno, por outro lado, é muitas vezes caricaturado como um derrotado social. Uma errónea projecção, se considerarmos que o misantropo não é um excluído ressentido, mas, sobretudo, um aristocrata de espírito, que vislumbra a podridão e recusa participar num "banquete de barrascos" diagnosticados com uma grave malformação hedónica.
A mais sensata veia misantropa, não odeia o homem enquanto criação à imagem de Deus ou como portador de razão e alma. O desprezo incide sobre a paródia feita ao homem que se arrasta pelas ruas das democracias liberais, proclamando liberdade enquanto é escravo dos seus apetites.
Distingue-se o homem do "homenzinho", esse ente menor, falsificado e domesticado pela cultura do vitimismo e do conforto.
Já a Esquerda moderna, sobretudo na sua vertente progressista-globalista, cultiva uma forma peculiar de misantropia: o ódio ao homem na sua essência, não obstante, dissimulando um amor universal pelo que este deveria ser. Uma complexa, mas pelos vistos, eficaz operação retórica, em que se finge amor pelo próximo para justificar o controlo "marioneteiro" social, numa das mais perniciosas farsas da modernidade.
A Esquerda, no seu âmago, crê que o ser humano é uma tábua rasa, um produto das estruturas, uma massa moldável segundo os critérios de igualdade absoluta. Esse homem idealizado, sem sexo definido, sem cultura, sem hierarquia, sem culpa e sem religião não existe.
"O revolucionário ama o proletariado como conceito, mas abomina o operário que reza, fuma e vota à direita."
— como bem apontou, o irónico Jean-François Revel.
A misantropia da esquerda manifesta-se, portanto, no ódio contra o pai de família e contra o homem viril porque representam tudo o que escapa ao modelo do "oprimido" útil. O "amor ao marginal" frequentemente esconde um desprezo pelo homem normal. O culto às minorias não é uma expressão de generosidade, mas uma arma para atacar a maioria; numa versão moderna daquilo que Tácito já denunciava como máxima do império decadente:
"Criam-se desertos e chamam-lhes paz".
Filipe Carvalho