"LUTA DE CLASSES NO WI-FI" IN OBSERVADOR
Há uma hipocrisia profundamente tragicómica na visão de um anfiteatro universitário contemporâneo. Onde outrora se debatia a estrutura do ser ou a gravidade das leis da economia, assiste-se hoje a uma mesquinha pantomima de virtude encenada. O rigor da leitura de biblioteca e o suor da verdadeira erudição foram sumariamente substituídos pela leitura de resumos em folhetos e pela urgência do slogan fácil. Já não se busca a verdade; busca-se a aprovação dos pares numa disputa feroz para ver quem ostenta a auréola moral mais reluzente.
Entram em cena os novos prosélitos da revolução. É um espectáculo digno de nota: o jovem, devidamente sustentado pela conta bancária dos pais e sufocado pelo enfado de uma existência burguesa, sente subitamente a imperiosa necessidade de derrubar o sistema. Faz o sacrifício supremo de proclamar a queda do capital através do ecrã reluzente do seu telemóvel topo de gama, montado nas entranhas do capitalismo neoliberal que jura odiar. A luta de classes é agora travada no intervalo de uma aula, entre o gole de um cappuccino com leite de aveia e a partilha frenética de uma imagem esteticamente irrepreensível.
A indignação converteu-se no acessório de moda definitivo. A revolução contemporânea não exige sacrifício, organização ou perigo real; exige apenas a selecção da tipografia correcta e a caça impiedosa à heresia do dia na secção de comentários do X. Dir-se-ia que esta geração confunde a genuína opressão operária com a angústia existencial de uma ligação Wi-Fi instável. Há uma soberba quase sagrada neste messianismo infantil, onde a linguagem da emancipação foi vulgarizada até se transformar num mero dialecto de vaidade.
Trata-se, no fundo, de uma busca desesperada por relevância. Numa era de atomização digital, o dogmatismo de esquerda oferece a ilusão acolhedora de uma tribo, um baptismo colectivo que absolve a prosápia dos abastados desde que estes repitam a liturgia adequada. A injustiça do mundo serve unicamente de cenário para a auto-celebração do indivíduo. E assim se cumpre a quimera: enquanto a realidade prossegue o seu curso imperfeito, a juventude académica aplaude a sua própria superioridade moral, convicta de que abalou as fundações do ocidente antes da hora de almoço.
Não tenhamos ilusões: o drama desta juventude não é a dor, é o tédio. Privados de verdadeiras guerras para combater ou de uma miséria real que lhes cale a arrogância, estes novos inquisidores académicos inventaram uma tirania de papel para poderem interpretar o papel de libertadores. É a estética da dor sem o fardo da tragédia. Reúnem-se em comités informais para caçar lapsos vocabulares nos corredores das faculdades, com o mesmo zelo fanático que os censores de outrora dedicavam à literatura proibida. Mudaram-se os dogmas, mas a pusilanimidade do espírito inquisitorial permanece rigorosamente intacta.
Se os virmos nas assembleias de estudantes é legítimo perguntar-mo-nos quando foi que o pensamento crítico cedeu o lugar a este catecismo histérico. O debate dialectico morreu; no seu lugar ergueu-se a exigência duma pureza doutrinária que não suporta o contraditório. O colega de turma que ouse citar um facto desconfortável ou levantar uma dúvida razoável é imediatamente marcado com o ferro em brasa da excomunhão digital. O extermínio da nuance é a maior vitória deste messianismo de trazer por casa. É infinitamente mais simples rotular o dissidente como um agente do mal do que dar-se ao trabalho de articular duas ideias com nexo.
A contradição é tão gritante que raia o sublime. O mesmo indivíduo que vocifera contra as grandes corporações e a exploração do trabalho humano recusa-se a largar as plataformas digitais que transformaram a sua própria atenção num produto negociável. Oferece voluntariamente a sua alma ao algoritmo em troca do alívio efémero de vinte reacções favoráveis e três dezenas de partilhas. Vende a sua individualidade ao desbarato para garantir que não é excluído da matilha. Não há qualquer gesto de insurreição aqui; há apenas a submissão cega a um novo conformismo vestida de rebeldia.
Quando esta geração for finalmente forçada a abandonar a estufa do ambiente universitário e a confrontar o mundo real, o choque será inevitável. Descobrirão, para seu profundo espanto, que as leis da realidade não se curvam a petições públicas nem a correntes de protesto no Instagram. Descobrirão que o operário real, aquele que verdadeiramente carrega a vida nas costas, não tem tempo nem paciência para a gíria académica dos seus pretensos salvadores. E nesse dia, a cortina da pantomima cairá, deixando no palco apenas o vazio de uma juventude que trocou a profundidade do saber pelo mero espectáculo da virtude.
Filipe Carvalho
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