"A gramática permitida: sobre a unidade que falta às direitas europeias" in Dextra Vox
A gramática permitida: sobre a unidade que falta às direitas europeias
Há qualquer coisa de irónico, e mesmo de faustiano, na circunstância de as direitas europeias, tão dadas a invocar a nação, a tradição e a continuidade histórica, serem hoje incapazes de sentar-se à mesma mesa sem discórdia. O Parlamento Europeu oferece o retrato clínico: três bancadas — o ECR de Giorgia Meloni e dos poloneses do PiS, nascido em 2009 por engenho de David Cameron; os Patriotas pela Europa, de Orbán, Le Pen e Salvini, agregados em 2024; e o ESN, onde se refugia a AfD — que raramente se cumprimentam e nunca se confundem. Seria fácil, e cómodo, atribuir isto à vaidade dos chefes, esse pecado tão antigo quanto a própria política. Mas a fractura é mais funda, e para a compreendê-la é preciso descer da geografia parlamentar até à genealogia intelectual — e, mais abaixo ainda, até à gramática que cada geração desta família política se permite falar.
Convém não esquecer que a direita, ao contrário do que os seus adversários gostam de supor, não carece de doutrina. Tem-na, e sólida. Pierre Manent, discípulo tardio de Aron e leitor exigente de Tocqueville, ensinou que a democracia só respira dentro de uma forma política determinada — a nação —, e que a "grande ilusão" do nosso tempo é imaginar a política como um estorvo à humanidade unificada, quando é justamente o contrário: é a ordem nacional que nos dá acesso ao que temos de mais humano [1]. Vindo, como vem, de uma tradição de historiador do liberalismo [2], Manent prova que este eixo, soberania contra abstracção cosmopolita, não obriga ninguém a escolher entre o liberal e o conservador. O britânico Roger Scruton chegou a conclusão semelhante por caminho diverso: sustentou que o Estado-nação é o único modelo que a experiência histórica mostrou capaz de sustentar, em simultâneo, democracia e liberdade [3]. Mas Scruton, com aquela finura que os continentais tantas vezes confundem com timidez, recusou sempre o rótulo de "nacionalista", pelas conotações de domínio que a palavra arrasta desde 1914. E é aqui, neste escrúpulo semântico, que já se anuncia a distância entre defender a nação como forma e defender a nação como sangue.
Porque há, decerto, uma diferença de natureza entre a linha institucional de Manent e Scruton e a linha civilizacional que o ensaísta Douglas Murray levou às últimas consequências, ao entrelaçar imigração, quebra de natalidade e islão numa narrativa de suicídio colectivo do Ocidente [4]. A filósofa Chantal Delsol explicou a raiz mais funda desta divergência: quando a Europa Ocidental fala de "valores europeus" pensa em multiculturalismo e mercado; quando a Europa Central fala dos mesmos valores, pensa em identidade, espiritualidade e heroísmo [5]. Não se trata de algo táctico, mas histórico e consequente da diferente experiência de um e de outro lado da antiga cortina de ferro.
Mas a fractura mais funda de todas não é esta, geográfica; é a que separa quem define a nação por cidadania e instituições de quem a define por etnia. E é aqui que a história obriga a um desvio incómodo. Alain de Benoist, fundador da Nouvelle Droite francesa nos anos sessenta, teve o mérito, ou o ardil, de perceber cedo que o vocabulário racial clássico morrera com Auschwitz e não voltaria a ser publicável. Substituiu-o pelo etnopluralismo: já não "raças superiores", mas "povos com identidades irredutíveis"; já não "hierarquia biológica", mas "direito à diferença". O cientista político holandês Cas Mudde reconhece que este vocabulário se tornou o substrato ideológico comum da direita radical europeia [6] — não porque tenha convencido pela força do argumento, mas porque encontrou a fórmula que a linguagem pública ainda tolera.
Renaud Camus fez o inverso: manteve a linguagem crua — "grande substituição" — e pagou o preço que Benoist evitara. A teoria foi citada nos manifestos dos autores dos atentados de Christchurch e El Paso, ambos em 2019, com mais de setenta mortos somados, e é por isso que, historiadores como Steven Forti tentam narrar que as tentativas de unificar a direita europeia em bloco parlamentar nasceram, desde 1999, de fusões incómodas com herdeiros do fascismo — a Aliança Nacional italiana, filha directa do velho MSI [7]. Convém, no entanto, ser preciso quanto ao que a justiça de facto lhe imputou. Camus nunca foi acusado, nem muito menos condenado, de cumplicidade nos assassinatos de Christchurch ou El Paso — nenhum tribunal, em lado nenhum, ligou juridicamente o autor aos atiradores. Mas foi condenado, isso sim, duas vezes em França por incitamento ao ódio racial: em 2014, por comentários sobre muçulmanos; e em 2022, quando o Tribunal de Recurso de Agen confirmou um mês de prisão suspensa por um discurso de 2017 em que declarara que "a imigração tornou-se uma invasão" [8]. É uma distinção que merece ser levada a sério, e não apenas por rigor factual: mostra que o direito francês opera com um limiar de "incitamento" muito mais baixo do que o americano — onde a jurisprudência de Brandenburg v. Ohio (1969) exige "acção ilegal iminente" para haver crime de expressão [9] — e que Camus, medido pela régua europeia, já foi considerado, por um tribunal, do lado errado dessa linha.
É este mesmo mecanismo — na tentativa de fugir à censura — que se observa, com nitidez quase didáctica, na trajectória retórica de Giorgia Meloni. Entre 2016 e 2018, ainda líder de oposição e sem "facturas" de poder a pagar, usou repetidamente a expressão "sostituzione etnica"; atribuindo o fenómeno a um plano orquestrado por George Soros, e o manifesto do seu partido, as Tesi di Trieste, citou como referência Jean Raspail, autor do romance sobre invasões migratórias e que se tornou leitura de culto da extrema-direita identitária europeia [10]. Era uma linguagem mais cáustica e entendível às massas porque a oposição não responde perante chancelarias. A partir de 2022, instalada em Palazzo Chigi, a mesma Meloni fala de outra maneira: já não "substituição étnica", mas agora "fluxos migratórios" — vocabulário de gestão administrativa que qualquer ministro do Interior de centro subscreveria sem reservas. E, para quem duvide da fibra lá por baixo, basta recordar que em Abril de 2024 o ministro Francesco Lollobrigida e cunhado da própria primeira-ministra, voltou a dizer "sostituzione etnica" a propósito da natalidade italiana, e viu-se a ser corrigido publicamente [11].
O que esta história nos ensina é que o cordon sanitaire que separa a direita "respeitável" da "irrespirável" nunca foi, na prática, apenas uma fronteira de ideias. É, antes de mais, uma fronteira de linguagem negociada em cada geração, pelo que a opinião publicada está disposta a absorver sem se escandalizar; mas é também, como o caso Camus obriga a reconhecer, uma fronteira jurídica real, que a lei traça de forma diferente consoante o país e a época. Benoist entendeu a gramática permitida nos anos setenta; Meloni entendeu-a mais tarde, à sua maneira, e teve o cuidado de nunca ultrapassar a linha que levou Camus a tribunal. Já Camus, esse, ultrapassou-a por duas vezes, e por isso continua do "lado maldito" não só do vidro simbólico, mas também da lei escrita. A dúvida que fica é esta: se o que separa o citável do incitável é, em parte, a gramática negociável e, em parte, um limiar jurídico que Camus já transpôs e que Meloni sempre evitou por pouco, então a unidade que falta às direitas europeias passa por saber quem, na família destra, será o parente mais corajoso.
───
Notas bibliográficas
1. Manent, Pierre. Cours familier de philosophie politique. Paris: Fayard, 2001.
2. Manent, Pierre. Histoire intellectuelle du libéralisme: dix leçons. Paris: Calmann-Lévy, 1987.
3. Scruton, Roger. The Need for Nations. Londres: Civitas, 2004.
4. Murray, Douglas. The Strange Death of Europe: Immigration, Identity, Islam. Londres: Bloomsbury Continuum, 2017.
5. Delsol, Chantal. Populisme: les demeurés de l'histoire. Paris: Éditions du Rocher, 2015.
6. Mudde, Cas. Citado in "Etno-pluralismo", verbete enciclopédico sobre a corrente ideológica central da direita radical europeia contemporânea.
7. Forti, Steven. "A extrema-direita europeia no seu próprio labirinto." Instituto Humanitas Unisinos (IHU).
8. LICRA. "Racisme. Renaud Camus condamné à 1 mois de prison avec sursis." Cour d'appel d'Agen, 17 de fevereiro de 2022; Times of Israël, "Jugement le 10 février pour Renaud Camus, poursuivi pour injure raciale" (condenação de 2014 confirmada em recurso em 2015).
9. Brandenburg v. Ohio, 395 U.S. 444 (1969), Supremo Tribunal dos Estados Unidos.
10. "Tesi di Trieste." Fratelli d'Italia, 2017; Raspail, Jean. Le Camp des Saints. Paris: Robert Laffont, 1973.
11. Pagella Politica. "Tutte le volte che Meloni e Salvini hanno parlato di 'sostituzione etnica'."
X f
Há qualquer coisa de irónico, e mesmo de faustiano, na circunstância de as direitas europeias, tão dadas a invocar a nação, a tradição e a continuidade histórica, serem hoje incapazes de sentar-se à mesma mesa sem discórdia. O Parlamento Europeu oferece o retrato clínico: três bancadas — o ECR de Giorgia Meloni e dos poloneses do PiS, nascido em 2009 por engenho de David Cameron; os Patriotas pela Europa, de Orbán, Le Pen e Salvini, agregados em 2024; e o ESN, onde se refugia a AfD — que raramente se cumprimentam e nunca se confundem. Seria fácil, e cómodo, atribuir isto à vaidade dos chefes, esse pecado tão antigo quanto a própria política. Mas a fractura é mais funda, e para a compreendê-la é preciso descer da geografia parlamentar até à genealogia intelectual — e, mais abaixo ainda, até à gramática que cada geração desta família política se permite falar.
Convém não esquecer que a direita, ao contrário do que os seus adversários gostam de supor, não carece de doutrina. Tem-na, e sólida. Pierre Manent, discípulo tardio de Aron e leitor exigente de Tocqueville, ensinou que a democracia só respira dentro de uma forma política determinada — a nação —, e que a "grande ilusão" do nosso tempo é imaginar a política como um estorvo à humanidade unificada, quando é justamente o contrário: é a ordem nacional que nos dá acesso ao que temos de mais humano [1]. Vindo, como vem, de uma tradição de historiador do liberalismo [2], Manent prova que este eixo, soberania contra abstracção cosmopolita, não obriga ninguém a escolher entre o liberal e o conservador. O britânico Roger Scruton chegou a conclusão semelhante por caminho diverso: sustentou que o Estado-nação é o único modelo que a experiência histórica mostrou capaz de sustentar, em simultâneo, democracia e liberdade [3]. Mas Scruton, com aquela finura que os continentais tantas vezes confundem com timidez, recusou sempre o rótulo de "nacionalista", pelas conotações de domínio que a palavra arrasta desde 1914. E é aqui, neste escrúpulo semântico, que já se anuncia a distância entre defender a nação como forma e defender a nação como sangue.
Porque há, decerto, uma diferença de natureza entre a linha institucional de Manent e Scruton e a linha civilizacional que o ensaísta Douglas Murray levou às últimas consequências, ao entrelaçar imigração, quebra de natalidade e islão numa narrativa de suicídio colectivo do Ocidente [4]. A filósofa Chantal Delsol explicou a raiz mais funda desta divergência: quando a Europa Ocidental fala de "valores europeus" pensa em multiculturalismo e mercado; quando a Europa Central fala dos mesmos valores, pensa em identidade, espiritualidade e heroísmo [5]. Não se trata de algo táctico, mas histórico e consequente da diferente experiência de um e de outro lado da antiga cortina de ferro.
Mas a fractura mais funda de todas não é esta, geográfica; é a que separa quem define a nação por cidadania e instituições de quem a define por etnia. E é aqui que a história obriga a um desvio incómodo. Alain de Benoist, fundador da Nouvelle Droite francesa nos anos sessenta, teve o mérito, ou o ardil, de perceber cedo que o vocabulário racial clássico morrera com Auschwitz e não voltaria a ser publicável. Substituiu-o pelo etnopluralismo: já não "raças superiores", mas "povos com identidades irredutíveis"; já não "hierarquia biológica", mas "direito à diferença". O cientista político holandês Cas Mudde reconhece que este vocabulário se tornou o substrato ideológico comum da direita radical europeia [6] — não porque tenha convencido pela força do argumento, mas porque encontrou a fórmula que a linguagem pública ainda tolera.
Renaud Camus fez o inverso: manteve a linguagem crua — "grande substituição" — e pagou o preço que Benoist evitara. A teoria foi citada nos manifestos dos autores dos atentados de Christchurch e El Paso, ambos em 2019, com mais de setenta mortos somados, e é por isso que, historiadores como Steven Forti tentam narrar que as tentativas de unificar a direita europeia em bloco parlamentar nasceram, desde 1999, de fusões incómodas com herdeiros do fascismo — a Aliança Nacional italiana, filha directa do velho MSI [7]. Convém, no entanto, ser preciso quanto ao que a justiça de facto lhe imputou. Camus nunca foi acusado, nem muito menos condenado, de cumplicidade nos assassinatos de Christchurch ou El Paso — nenhum tribunal, em lado nenhum, ligou juridicamente o autor aos atiradores. Mas foi condenado, isso sim, duas vezes em França por incitamento ao ódio racial: em 2014, por comentários sobre muçulmanos; e em 2022, quando o Tribunal de Recurso de Agen confirmou um mês de prisão suspensa por um discurso de 2017 em que declarara que "a imigração tornou-se uma invasão" [8]. É uma distinção que merece ser levada a sério, e não apenas por rigor factual: mostra que o direito francês opera com um limiar de "incitamento" muito mais baixo do que o americano — onde a jurisprudência de Brandenburg v. Ohio (1969) exige "acção ilegal iminente" para haver crime de expressão [9] — e que Camus, medido pela régua europeia, já foi considerado, por um tribunal, do lado errado dessa linha.
É este mesmo mecanismo — na tentativa de fugir à censura — que se observa, com nitidez quase didáctica, na trajectória retórica de Giorgia Meloni. Entre 2016 e 2018, ainda líder de oposição e sem "facturas" de poder a pagar, usou repetidamente a expressão "sostituzione etnica"; atribuindo o fenómeno a um plano orquestrado por George Soros, e o manifesto do seu partido, as Tesi di Trieste, citou como referência Jean Raspail, autor do romance sobre invasões migratórias e que se tornou leitura de culto da extrema-direita identitária europeia [10]. Era uma linguagem mais cáustica e entendível às massas porque a oposição não responde perante chancelarias. A partir de 2022, instalada em Palazzo Chigi, a mesma Meloni fala de outra maneira: já não "substituição étnica", mas agora "fluxos migratórios" — vocabulário de gestão administrativa que qualquer ministro do Interior de centro subscreveria sem reservas. E, para quem duvide da fibra lá por baixo, basta recordar que em Abril de 2024 o ministro Francesco Lollobrigida e cunhado da própria primeira-ministra, voltou a dizer "sostituzione etnica" a propósito da natalidade italiana, e viu-se a ser corrigido publicamente [11].
O que esta história nos ensina é que o cordon sanitaire que separa a direita "respeitável" da "irrespirável" nunca foi, na prática, apenas uma fronteira de ideias. É, antes de mais, uma fronteira de linguagem negociada em cada geração, pelo que a opinião publicada está disposta a absorver sem se escandalizar; mas é também, como o caso Camus obriga a reconhecer, uma fronteira jurídica real, que a lei traça de forma diferente consoante o país e a época. Benoist entendeu a gramática permitida nos anos setenta; Meloni entendeu-a mais tarde, à sua maneira, e teve o cuidado de nunca ultrapassar a linha que levou Camus a tribunal. Já Camus, esse, ultrapassou-a por duas vezes, e por isso continua do "lado maldito" não só do vidro simbólico, mas também da lei escrita. A dúvida que fica é esta: se o que separa o citável do incitável é, em parte, a gramática negociável e, em parte, um limiar jurídico que Camus já transpôs e que Meloni sempre evitou por pouco, então a unidade que falta às direitas europeias passa por saber quem, na família destra, será o parente mais corajoso.
───
Notas bibliográficas
1. Manent, Pierre. Cours familier de philosophie politique. Paris: Fayard, 2001.
2. Manent, Pierre. Histoire intellectuelle du libéralisme: dix leçons. Paris: Calmann-Lévy, 1987.
3. Scruton, Roger. The Need for Nations. Londres: Civitas, 2004.
4. Murray, Douglas. The Strange Death of Europe: Immigration, Identity, Islam. Londres: Bloomsbury Continuum, 2017.
5. Delsol, Chantal. Populisme: les demeurés de l'histoire. Paris: Éditions du Rocher, 2015.
6. Mudde, Cas. Citado in "Etno-pluralismo", verbete enciclopédico sobre a corrente ideológica central da direita radical europeia contemporânea.
7. Forti, Steven. "A extrema-direita europeia no seu próprio labirinto." Instituto Humanitas Unisinos (IHU).
8. LICRA. "Racisme. Renaud Camus condamné à 1 mois de prison avec sursis." Cour d'appel d'Agen, 17 de fevereiro de 2022; Times of Israël, "Jugement le 10 février pour Renaud Camus, poursuivi pour injure raciale" (condenação de 2014 confirmada em recurso em 2015).
9. Brandenburg v. Ohio, 395 U.S. 444 (1969), Supremo Tribunal dos Estados Unidos.
10. "Tesi di Trieste." Fratelli d'Italia, 2017; Raspail, Jean. Le Camp des Saints. Paris: Robert Laffont, 1973.
11. Pagella Politica. "Tutte le volte che Meloni e Salvini hanno parlato di 'sostituzione etnica'."
X f
Comentários
Enviar um comentário