A morte do espírito in "O diabo"
A morte do espírito
"Amar Portugal é desejar que ele seja eterno."
Agustina Bessa-Luís
Portugal assiste, impassível, à lenta agonia do espírito. Já não há inquietação filosófica, nem sede de transcendência, nem sequer o mais básico instinto de sobrevivência cultural. Vivemos tempos de tirania suave, onde a censura já não se impõe com baionetas, mas com likes e linchamentos morais em praça digital.
O que se passa não é novo. O filósofo espanhol Ortega y Gasset alertava para a ascensão do "homem-massa" , um sujeito vaidosamente ignorante, que despreza o mérito, odeia a hierarquia e vive na ilusão de que a sua opinião vale tanto quanto a de um sábio ancião. Em Portugal, esse homem-massa ergeu-se em sistema, e hoje governa. O medíocre reina porque se reproduz em série e detesta a excelência. E quem educa esse novo homem? O Estado pedagógico. A escola pública tornou-se num laboratório ideológico, onde se apaga o passado, ridicularizando a virtude em paralelo com a relativização do bem. Os alunos já não decoram os Lusíadas, mas sabem distinguir todas as identidades de género num cartaz colorido financiado por Bruxelas. Isto não é progresso, é manipulação social. E a Direita, ao aceitar estes termos de debate, arrisca deixar de ser uma noticiosa alternativa para se tornar numa nota de rodapé.
A Direita, se quiser existir, tem de deixar de pedir desculpas. Chega de andar com complexos de culpa herdados da Revolução dos Cravos, como se a defesa da ordem, da autoridade ou da identidade fosse um hediondo crime. A Esquerda já não tem Marx, enverga antes, o moralismo woke, um sentimentalismo vazio e um Estado que tudo quer regular, desde o carbono que exalamos até às palavras que usamos. É uma nova Inquisição, mas sem Deus.
Portugal precisa de elites verdadeiras, dos aristocratas do espírito, não de burocratas da indignação. Mas precisa, acima de tudo, de coragem, essa palavra proibida, que nos lembra heroísmo e combate, afrontando a masculinidade deste século.
O país que deu ao mundo Camões, Eça e Pessoa, não deve resignar-se a ser um apêndice irrelevante de Bruxelas, deve antes, avançar, descartando o reboque de planos estratégicos, comissões paritárias, quotas de tudo menos de mérito, e campanhas multicolores onde ensinam aos miúdos como desconstruir a realidade antes mesmo de saberem declinar um verbo ou soletrar "Portugal".
O nacionalismo, essa blasfémia condecorada como palavra proibida, outrora sinónimo de dignidade e soberania, hoje empacotada como se fosse um artefacto radioactivo; quando tocada, transforma automaticamente qualquer discordante deste paradigma canhoto num "fascista", num insulto tão gasto que já serve para tudo: desde amar a bandeira até dar os "bons dias" com demasiada firmeza.
Sim, somos um país pequeno, mas já fomos grandes e, parafraseando Fernando Pessoa:" Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura." Fomos impérios e descobridores, poetas e guerreiros, santos e reis; e talvez seja tempo de olhar para trás e de lembrar que o nosso tamanho pertence aos que não têm medo da nossa altura.
Portugal, esse velho cavaleiro andante, foi amansado pelas anestesias civilizacionais, puras campanhas de diversidade onde até os santos seriam hoje chamados à comissão de ética. Dom Nuno seria acusado de "radicalização extremista", Camões cancelado por "cultural appropriation", e D. Afonso Henriques, seguramente enviado para um workshop de desconstrução da masculinidade tóxica.
Na recta-guarda de tudo isto está a Europa, não aquela de Carlos Magno ou de São Tomás de Aquino, mas esta coisa insípida e burocrática chamada "União Europeia".
O despertar nacional não virá com slogans ou hashtags. Virá com silêncio interior, com leitura, com exigência, com fé. Virá quando percebermos que amar Portugal não é um acto nostálgico, mas um acto revolucionário.
Charles Maurras dizia que a política deve ser a arte de tornar possível o que é necessário. E o necessário hoje é isto: restaurar o vínculo entre o povo e o patriotismo. Não basta uma Direita de planilhas e impostos baixos, precisamos de uma Direita metafísica. Uma Direita que compreenda que sem ordem não há liberdade, que sem transcendência não há sentido, e que sem Pátria não há Homem.
O amor a um país, o verdadeiro, não o histriónico; exige fidelidade, sacrifício, hierarquia e pertença. O cosmopolitismo que nos vendem é apenas o luxo dos que têm raízes em parte nenhuma. "O patriotismo é a caridade bem ordenada", escrevia Joseph de Maistre. Só um povo que ama o seu chão pode olhar o mundo com altivez, não com a subserviência de quem implora fundos europeus para pintar passadeiras arco-íris.